Publicado em 30 de maio de 2016


Apesar da correria da safra, fui recebido com muita consideração por Ademir Brandelli (foto esq.), que me contou detalhes da história da família, os desafios e a determinação do bisavô Marcelino, e o empenho dos descendentes Cézar e Laurindo em continuar uma trajetória vencedora, como a de milhares de imigrantes da Serra Gaúcha, e porque não dizer, do meu amado Espírito Santo, cuja imigração italiana tem papel fundamental em seu desenvolvimento.


Um dos mais experientes enólogos brasileiros, Ademir Brandelli fundou, junto com seu pai, Laurindo Brandelli, a vinícola Don Laurindo, em 1991, após décadas de produção e comercialização da uva para terceiros ou para elaboração de vinhos para o consumo próprio. Não demorou muito para a Don Laurindo se tornar uma vinícola conhecida e respeitada, com um público consumidor fiel ao seu estilo, similar aos vinhos sul americanos, sobretudo do vinho chileno, de corpo leve a médio, aveludado, com baixo tanino e acidez, e aromas de baunilha, tutti frutti, característicos de vinhos com forte presença do carvalho.





PARREIRAIS NO VALE DOS VINHEDOS


Com cultivo de uvas próprias, dos parreirais no Vale dos Vinhedos, Ademir montou uma empresa de sucesso, baseada no forte apelo de mercado que vinhos mais leves, mas de qualidade, tem em muitos consumidores, o que pode ser comprovado pelo sucesso dos vinhos chilenos.


Mesmo visitando videiras há mais de vinte anos, sempre me emociono ao conhecer novos parreirais, pois cada um tem seu estilo, representando o carinho e o respeito que o produtor tem pela sua terra. Os vinhedos da Don Laurindo, próximos à cantina, são deslumbrantes, reflexo de um manejo cuidadoso que resulta em uvas sãs, capazes de proporcionar a vinificação que o enólogo deseja. A vontade que tive foi de ficar ali por várias horas, curtindo a natureza e o ambiente, que pede um piquenique e uma boa garrafa de vinho “da casa”.

 



A CANTINA DON LAURINDO – Tecnologia de Ponta e Bela Arquitetura


Não faço coro com os que dizem que se você visitou uma vinícola, visitou todas. Cada cantina possui sua história, seu charme, devendo ser valorizada por isso. Não sei quantas vezes estive na Don Laurindo, mas é sempre um prazer voltar a um lugar tão inspirador.


A vista externa do prédio demonstra que estamos chegando a um local em que cada detalhe foi pensado com esmero e dedicação. Por isso a Don Laurindo é, para mim, uma das mais bonitas vinícolas da Serra Gaúcha.


Ao entrarmos nos deparamos com uma cantina imponente, com grandes tanques de aço inox e pipas de madeira que levam o visitante ao passado e ao futuro. A manutenção das antigas tinas mostra a importância que Ademir Brandelli dá ao processo de vinificação dos imigrantes italianos há mais de cem anos.


A adega, em dois corredores paralelos à cantina, é um presente aos amantes do vinho, aonde o vinho descansa em garrafas e barricas de carvalho para amadurecimento antes da comercialização. Dividida em baias, a que certamente chama a atenção e aguça a vontade de muitos enófilos, nos quais me encaixo, é a que armazena os vinhos de guarda, com exemplares das décadas de 1990 e 2000. Não culpo Ademir por ser a única protegida por portão de ferro e cadeado, impedindo ávidos apreciadores, como eu, de mexer nas garrafas e atrapalhar o seu precioso repouso. 


A recepção no varejo é feita por colaboradores competentes no atendimento aos visitantes, entre eles Moisés Brandelli, filho de Ademir, e Jeferson Mariani, meus colegas no curso de Viticultura e Enologia do IFRS. A diversidade de cultivares e cortes possibilita enófilos experientes e apreciadores recentes escolherem os rótulos que mais lhe agradam. Em minha visita, a degustação foi completa, algo muito prazeroso para um momento de trabalho, não acham?!!!



OS VINHOS DON LAURINDO


Conforme descrito no início desta reportagem, no meu entender, as características dos vinhos Don Laurindo resultam de um processo de vinificação que lhes confere tipicidade americana (Sul e Norte) com base no carvalho, havendo uma padronização final dos produtos, independente da variedade da cultivar. Assim, ao invés de avaliar individualmente os vinhos, faço a descrição destas características gerais, que têm como objetivo conquistar um público que se identifica com este paladar e aromas.


Por conta do clima e do solo, chamado de terroir, os vinhos do Sul do Brasil se assemelham aos europeus,  com taninos e acidez presentes, e bastante influência da uva. Os vinhos Don Laurindo, por conta de uma vinificação direcionada para este fim, fogem a este padrão, assemelhando-se aos vinhos do novo mundo, os quais, independente da cultivar, são vinhos com taninos e acidez macios, mesmo jovens, aromas adocicados de compotas de frutas, ou  provenientes do carvalho, como baunilha, manteiga, tutti fruti, e um fim de boca aveludado.


Um exemplo técnico que posso citar para facilitar o entendimento do que tento explicar, é da cultivar Ancellotta. Conhecida por ser uma uva tintória pela grande concentração de antocianinas (de coloração preta/violácea quando jovem), e com muita presença de tanino e acidez, aromas de frutas negras e vegetal, esta uva comumente resulta em vinhos encorpados que exigem anos de amadurecimento para estar prontos para serem degustados. O Ancellotta 2013 Don Laurindo não somente está pronto para se degustar, como é um vinho com menos corpo e macio do que a maioria dos Merlot vinificados no Rio Grande do Sul. Os brancos Malvasia de Candia e Chardonnay, com passagem pelo carvalho, seguindo este padrão, possuem baixa acidez, comparados aos seus pares, e notas de nozes, tutti fruti, um leve tostado e o adocicado das compotas de frutas brancas/amarelas.  


A exceção é o Gran Reserva 2005 (foto), elaborado em safras de ótimas, que reflete o potencial das uvas Tannat e Ancellotta de resultar em vinhos bastante encorpados, com capacidade de amadurecimento, com taninos e acidez intensos, aromas varietais de frutas pretas maduras (mesmo após 11 anos), herbáceo, e um toque de estrebaria derivado do Etil Fenol. Tive o prazer de degustá-lo recentemente na casa de Airton e Silvana Sartori, em mais um jantar maravilhoso com grandes amigos, e o Gran Reserva 2005 harmonizou muito bem com uma deliciosa lasanha de carne moída com batatas assadas. 



Como economista e analista de mercado, ressalto a importância da Don Laurindo na Serra Gaúcha e no cenário do vinho brasileiro, por ser uma empresa que oferece aos consumidores uma opção de produtos com estilo do Novo Mundo, sendo concorrente dos vinhos chilenos, argentinos e americanos.


Por fim, um pensamento do filósofo Sócrates que enaltece o vinho e, consequentemente, os que a produzem e nos proporcionam momentos tão bacanas.



Até nosso próximo encontro!!!