Apresento alguns vinhos degustados em um jantar no sítio de César e Maria Pretto, do produtor Vilmar Bettú, que nos trouxe três propostas totalmente diferentes, o que me remete a uma questão que levanto recorrentemente. É comum avaliarmos um vinho não pelas suas características, mas pelo que esperamos dele, e então, se o vinho NÃO se encaixa naquilo que desejamos, o vinho é ruim, e se encaixa, é ótimo. No caso dos vinhos de Bettú, seria recomendada a primeira opção.


Merlot 2015: fermentado com leveduras selvagens (ainda sem rótulo comercial) e sem passagem por carvalho. Eu estava presente na pisa desta uva ano passado, e me recordo do alto grau de glicose e frutose presente, o que possibilitaria a geração de um vinho com elevado álcool, em torno de 14° GL. Entretanto, é sabido que leveduras selvagens provenientes da própria uva, não suportam altas concentrações de álcool, o que nos fez projetar um teor de álcool deste vinho em torno de 12,5°, havendo açúcar residual não fermentado (Bettú ainda fará a análise laboratorial para saber a concentração precisa). O vinho ficou ótimo, pois este açúcar residual é contrabalanceado por uma excelente acidez, equilibrando-o, perfeito para harmonizar carnes, massas e risotos com temperos leves, ou uma entrada com queijos como camembert ou brie. De colocarão rubi clara, proveniente de todo Merlot 100%, tem aromas de frutas vermelhas e negras, e ótima capacidade de amadurecimento, o que aumentará sua complexidade, apesar de estar pronto para se beber.


Merlot 2015 fermentado com leveduras selvagens.


Touriga Nacional 2008: de corpo médio, coloração vermelho rubi, aromas frutados e toques de pimenta e baunilha, pelo amadurecimento e carvalho, taninos e acidez macios, está pronto, em seu auge, um um vinho untuoso, aveludado e com ótima persistência em boca, acompanhando perfeitamente a massa com codornas feita pela cozinheira Maria Marcon Pretto.


Touriga Nacional 2008 com passagem no carvalho.


Ancellota 2006: com três anos de barrica foi o grande enigma da noite, pois não é um vinho que se encaixa na percepção individual de todos, exigindo que ele seja entendido a partir de suas características. Excelente, classifico este vinho, porém, sei que esta avaliação está longe de ser unânime. Quem conhece esta cultivar italiana sabe que se trata de uma variedade muito tintória e tânica, que gera vinhos extremamente encorpados que requerem anos na garrafa para estarem prontos. A passagem por três anos em barrica amplia o corpo e os taninos, exigindo ainda mais amadurecimento de seus compostos, o que me lembrou os grandes vinhos italianos. Coloração violácea, ainda jovem, taninos e acidez vivos e aromas de frutas negras e um leve toque de tostado, grande persistência em boca. Degustá-lo agora exige assados ou cozidos com bastante tempero e enófilos que saibam quando um vinho não está pronto; indico sua guarda por ainda vários anos, o que tornará este vinho excepcional. 


Ancelotta 2006 com três anos no barril de carvalho.