Antes das novas técnicas de vinificação, a produção de vinhos seguia preceitos distintos dos atuais, e um deles era a maceração do mosto de uvas brancas com a casca, com maior contato com o oxigênio, o que resultava em maior oxidação e intensidade em aromas e sabores. Hoje, após a prensagem das uvas brancas, a separação entre casca e mosto é imediata. Há alguns anos, vinhateiros italianos reviveram este antigo processo, sendo seguidos por produtores em diversos países, entre eles o Brasil. Em Vitória - ES participei de uma degustação na qual havia o Laranja Ç CC + JI, um vinho de garagem. Esta denominação faz referência à fruta cítrica pela coloração, amarelo ouro intenso, dada a forte extração de compostos coloríficos (carotenos) presentes nas cascas das uvas brancas. Mas o processo não impacta só a cor, mas o aroma e sabor, ampliando consideravelmente a potência do vinho.


Muito se discute sobre a viabilidade de se retomar este tipo de produção. Como democrático, defendo que cada produtor faça o que quiser (laranja, orgânico, biodinâmico, tradicional), mas de minha parte, gostarei se o vinho for bom, são, agradando-me, e não por ser se tratar deste ou daquele processo. Não sigo “ondas” de mercado ou ideologias de produção.


O vinho agradou a vários confrades presentes na degustação, mas para mim o ponto positivo foi sua qualidade, derivado de uma vinificação séria, mas suas características organolépticas não me agradaram. Brancos ou tintos, prefiro vinhos complexos, mas elegantes e discretos, e sua intensidade de aromas e sabores tornaram-no enjoativo.



Sou fã do aroma mineral das variedades Riesling (Renano ou Itálico), proveniente de lactonas (Clarke et. al. 2004) e do norisoprenóide não-megastigmano odorífero TDN 1,1,6-trimetil-1,2-dihidronaftaleno (Ferreira et. al. 2003), porém, este exemplar era uma “bomba de querosene”. Na boca o Matte Leão que costumava beber, bastante gelado, para refrescar; ótimo para um chá, não para um vinho branco. Pensei nos pratos que harmonizariam com ele, e somente coisas “pesadas” me vieram à cabeça, como queijo gorgonzola, o português serra da estrela, pratos muito temperados e até carnes vermelhas.


Acredito que mais alguns anos de amadurecimento na garrafa, com maior estabilização de compostos, tornarão este vinho mais palatável para mim (um amigo enólogo fez um laranja 2011 e até o  momento não o colocou à venda, esperando seu amadurecimento). De qualquer forma, a elegância e complexidade dos vinhos brancos sem maceração e controle de oxidação, devem continuar sendo os meus preferidos, independente de mais ou menos encorpados, inclusive (alguns) com pequeno período em barricas de carvalho.