Tive o prazer de estar presente em um jantar no restaurante Caldeiras, de Bento Gonçalves, no qual estavam presentes os amigos cariocas Tito de Aragão Villar, médico, a jornalista Márcia Pinto, e os gaúchos Guilherme e Michele Salton, sócios proprietários da vinícola Valmarino, de Pinto Bandeira.


O momento seria perfeito pela união de amigos e um belo lugar, mas se tornou um acontecimento pela degustação de três exemplares de espumante e vinhos Valmarino, vinícola reconhecida pela qualidade diferenciada de seus produtos.


Por ser a primeira vez que estive no Caldeiras, impressionou-me a beleza e a estrutura do lugar. Por chegar antes, aproveitei para tirar algumas fotos do restaurante ainda vazio, pois em pouco tempo, ficou lotado.


Escolhido o cardápio, composto de salada com amêndoas, bacalhau e ossobuco, iniciamos a degustação com o espumante Extra Brut Valmarino Churchil 2013, 90% Chardonnay e 10% Pinot Noir, com 12 meses de maturação em contato com as leveduras após a segunda fermentação pelo método tradicional. Por este contato não ter sido muito longo (outros exemplares da empresa chegam a ficar 24 e 36 em autólise), o Churchil mantém o frescor do vinho base, com acidez equilibrada e aromas e paladares cítricos, aliados à leve complexidade aportada pelas leveduras, com toques de frutas secas, amêndoas e pão. A suavidade e elegância deste espumante foi importante para manter as papilas em perfeito estado para a degustação dos vinhos que viriam.


Ao contrário do espumante comprado no restaurante, os tintos, não mais à venda na vinícola, foram oferecidos por Tito, o Reserva de Família 2005, e por Guilherme (2008). Este corte de Cabernet Franc, Merlot, Tannat e Cabernet Sauvignon é sempre surpreendente, sendo um vinho excepcional, mas degustá-los com maior tempo de envelhecimento torna a experiência surreal, pois poucas vezes experimentei vinhos tão complexos e saborosos. O exemplar 2005 foi servido com o bacalhau, e sua maciez de aromas e sabores terciários harmonizaram perfeitamente com o peixe. Coloração rubi com um alo demonstrando sua idade, aromas de especiarias desde o início, com a esterificação de ácidos e oxidações de taninos e demais compostos, liberando moléculas aromáticas. Sem exagero, senti toques de curry, páprica, tomilho, sálvia, pimenta do reino, e notas de frutas secas e amêndoas. No paladar, tão saboroso e intenso que o mantinha em boca por um tempo, para que pudesse absorver tudo que fosse possível. Frutas secas, taninos maduros e acidez ainda viva tornavam-no impactante, gastronômico e persistente. Untuoso e volumoso pela polimerização de compostos (formando moléculas de cadeia longa).


Elaborado em anos de uvas com excelência em maturação tecnológica e fenólica, o seu sucessor somente ocorreu em 2008, mantendo-se a qualidade do Reserva de Família, o vinho TOP da Valmarino. Não fossem a coloração rubi mais intensa e presença de frutas negras maduras no aroma no início da degustação, por ser mais novo, as demais características do 2005 surgiram após um tempo na taça, com especiarias e amêndoas exalando para todos os lados, e boca saborosa, complexa, gastronômica, equilibrada, madura, persistente, acompanhando com perfeição o ossobuco com polenta com queijo.


São exemplares como este que nos fazem defender sempre mais o vinho nacional, e não somente o espumante, o qual conquistou o seu espaço. Hoje o Brasil tem diversas regiões produtoras, com características específicas, as quais precisam ser respeitadas e entendidas, e não comparadas com este ou aquele terroir, como ainda insistem muitos “enófilos” que não possuem a capacidade de entender que cada vinho possui suas características, não havendo nenhuma obrigação de o Brasil elaborar vinhos como este ou aquele país. Eu adoro as características dos diversos tipos de terroirs brasileiros, e convido a todos para se deleitarem com nossas maravilhas enológicas, como os Reserva de Família Valmarino, de todas as safras.



Pra finalizar esta matéria, faço referência especial ao amigo Tito Aragão, enófilo com muita experiência, que apesar de viajar para diversos países vitivinícolas, degustar os melhores vinhos de todo o mundo, inclusive de muitas décadas de envelhecimento, periodicamente visita as regiões vinícolas brasileiras e degusta  nossos vinhos e espumantes, e tem orgulho de dizer que mais de 30% de sua adega é de exemplares nacionais. Competência para entender os diversos terroirs não é pra qualquer um, prezado Tito, pois é mais fácil esconder a ignorância dizendo que o vinho brasileiro não é bom, ao invés de procurar conhecê-lo e entendê-lo.