O capixaba, advogado, professor e um dos mais conhecedores enófilos de vinhos de todo o mundo, Rodrigo Mazzei, relata à Adega do Chamon degustação que demonstra o potencial dos produtos nacionais. Segue sua descrição.

 

Caríssimos, ontem abri dois vinhos muito distintos, com o objetivo de analisá-los agora, mas projetando-os para o futuro, pois ambos possuem grande potencial de amadurecimento. O Chateau Maucaillou, 2011, Bordeaux da região de Moulis (margem esquerda) e, como tal, conduzido pela cabernet sauvignon (52%), devidamente escoltado pela merlot (41%) e complementado pela petit verdot (7%). Com 18 (dezoito) meses de estágio em barrica, na minha opinião, o Chateau Maucaillou é uma ótima opção para quem gosta de vinhos bordaleses e não gosta de gastar demais, não se importando em beber apenas o rótulo. O outro exemplar degustado foi o Valmarino Cabernet Franc ANO XIX 2013, vinho nacional produzido pela vinícola que lhe confere o nome, na cidade de Pinto Bandeira (RS). Também com estágio em madeira – 12 (doze) meses em carvalho americano, o vinho é um exemplo positivo brasileiro, até mesmo na sua apresentação, que é muito bela e enaltece a pequena produção (pouco mais de seis mil garrafas anuais). Detalhe importante, os dois vinhos possuem a mesma graduação alcoólica (13º). A degustação foi feita por mim e pelo amigo Cícero Nemer (confrade da Wine Hunters), com as respectivas esposas (hoje diretoras da Confragância).


Abertas as garrafas, o Chateau Maucaillou foi decantado por aproximadamente uma hora, ao passo que o Valmarino Cabernet Franc descansou em taças e garrafa (ao estilo italiano) pelo mesmo tempo. No nariz, surpreendente presença do vinho nacional, mais exuberante que o vinho francês. Detalhe importante, o Valmarino se manteve sem queda, exalando aromas sedutores (amêndoa, especiarias e um pouco de fruta passificada), que indicavam a sua densidade e acidez (característica marcante do vinho). O bordeaux, embora um pouco mais antigo, manteve-se mais austero e com uma evolução no nariz mais lenta, iniciando com notas de couro, e, com o tempo surgindo um chocolate e, bem no fundo, canela. Ambos vinhos de cor vibrante, indicando sua jovialidade e que há mundo carvão na linha evolutiva. Não tenho dúvida que falta bastante tempo para os vinhos chegarem ao seu topo (estimo uns cinco anos, pelo menos).


Na análise visual a lagrima deixada pelo Valmarino mostrou o peso do vinho, renovando a cada manejo da taça seus aromas muito agradáveis, que se misturavam com álcool. Em boca, dois vinhos distintos, cada uma com sua identidade própria, mas ambos muito bons para harmonização com espaquete ao alho e óleo com escalope de filet. Destaco que a massa tinha excesso de pimenta do reino, o que fez despontar o álcool e os taninos dos vinhos, sendo que a acidez pronunciada do Valmarino o fez sentir menos o excesso. As taças finais, de encerramento, após finalizado o prato, indicaram o bordeaux bem equilibrado, sempre lembrando couro e chocolate. O Valmarino, por sua vez, estava fechando com notas mais amantegadas, provavelmente do carvalho americano, com expressiva baunilha. A sua intensa acidez tornou-o gastronômico durante todo o jantar.

 

O teste com um outro amigo: servimos uma taça do Valmarino, às cegas, a um amigo que estava no restaurante. Sem vacilar, o colega apostou no velho mundo, não conseguindo precisar a nação. O que pude perceber, na verdade, foi que a leitura do amigo foi de que não se tratava de vinho do novo mundo, mas não conseguiu o encaixe no modelo do velho mundo. Descartou a França, e, por afinidade (muito provável pela acidez) cravou na Itália, projetando um supertoscano. Dos quatro da mesa, dois prefeririam – para o momento - o bordeaux e dois o nacional, muito embora a aprovação tenha sido geral. O que fica da experiência? (1) são, de fato, dois ótimos vinhos (que merecem lugar na adega de qualquer amante de vinho); (2) ambos estão longe do seu auge (precisam de descanso em garrafa – estimo mais cinco anos); (3) belo bordeaux, em que o equilíbrio é o seu ponto marcante; (4) vinho nacional de altíssimo nível, sem ponto de contato com o novo mundo (exceto pelo carvalho americano, ainda muito presente); (5) a acidez é fundamental para a harmonização; (6) para beber bons vinhos, há de se despir de preconceitos, pois, com garimpo, é possível se localizar bordeaux de preços não proibitivos, e, de outra banda, há vinhos nacionais capazes de satisfazer os mais exigentes paladares. Termino ressaltando a última conclusão, experimentar sem preconceito, foi justamente o que fez o grupo de ontem ao juntar dois vinhos tão distintos, mas que, apesar de diferentes, tinham muito em comum.

 

Mazzei pede ao amigo Cícero Nemer breve avaliação e recebe o texto a seguir: dois excelentes vinhos, de características diferentes, e com grande potencial de amadurecimento. Concordando com o terceiro amigo do restaurante, Nemer entende que o Valmarino lembra um supertoscano, pois possui um nariz soberbo e que se amplia com o tempo, ficando ainda mais agradável na boca. O francês tem uma ótima relação preço e resultado.