Muitos são os mitos que envolvem o mundo do vinho, infelizmente, espalhados por motivos diversos, mas em geral econômicos / de mercado, que nos levam a acreditar em ideias pré - concebidas que não se sustentam tecnicamente. “Tannat bom é uruguaio”. Quem não ouviu este jargão? É tão incompetente resumir o mundo do vinho a padrões pré-definidos, que ao ouvir este tipo de comentário, costumo não alongar a conversa com pessoas que acreditam nisso, pois se percebe suas limitações de conhecimento.


Não discuto a qualidade do Tannat uruguaio, mas são tantos excelentes  vinhos brasileiros (e de outros países) com esta cultivar, que tão bem se adaptou às regiões do Rio Grande do Sul, que poucas degustações são suficientes para a quebra deste mito.


Um dos exemplos vem de Guaporé, pequena cidade da Serra Gaúcha, na qual se situa a vinícola Gheller, que elaborou o Tannat 2010 (da Gheller, confira também o Vitral 2005 http://www.adegadochamon.com/culinariaorientalvinhosnacionais.html).


Potência, estrutura e complexidade presentes neste vinho, resultado da elevada concentração de taninos e antocianas desta casta (dada a larga espessura de sua película), que garante vinhos tânicos e tintórios (de guarda), com elevados IPT – Índice de Polifenóis Totais, o que lhe proporciona ainda muitos anos de envelhecimento, apesar dos 07 anos de vida.


Coloração rubi intensa, nos aromas diversidade típica de vinhos elaborados com competência e com o objetivo de guarda, com mix de aromas varietais, da vinificação e do envelhecimento: leve couro e frutas negras, tostado e especiarias, elegante e forte. No paladar, taninos e ácidos presentes, maduros e saborosos, confirmam a tipicidade da uva e do terroir brasileiro, gastronômico e persistente de fundo de boca. A harmonização com filé mignon ao molho de gorgonzola e risoto de pesto de manjericão, no restaurante Mama Gemma, no Vale dos Vinhedos, foi perfeita.


A degustação deste grande vinho foi ainda mais especial, pois estava na companhia dos amigos capixabas Rodrigo e Paula Mazzei. Apesar de um especialista em Tannat uruguaio e de vinhos de todo o mundo, Rodrigo não faz parte do grupo que acredita que esta uva não dê bons vinhos em outras regiões. Escolhi este vinho da carta do Mama Gemma por ainda não ter degustado, pelo seu ótimo preço, por saber da qualidade dos produtos da Gheller, e para colocá – lo à avaliação do amigo. Os elogios foram muitos, inclusive com a defesa, por Mazzei, de características similares entre os dois terroirs para esta cultivar, o uruguaio e o brasileiro.