Recebi em minha casa para um jantar o amigo Fernando Martelli, guia turístico de Garibaldi e Bento Gonçalves (Dicas da Adega), e as capixabas Larissa Memelli e Cláudia Müller, que vieram à Serra Gaúcha para um turismo enológico. Amantes do vinho e do espumante fino, as amigas tinham como objetivo conhecer as vinícolas e seus vinhos, visto que, infelizmente, os enófilos capixabas têm à sua disposição, em nossa terra, poucos exemplares de algumas grandes vinícolas, os quais não são suficientes para representar a diversidade dos produtos aqui elaborados. Assim como todos que passam a conhecer a qualidade dos vinhos e espumantes do Brasil, Larissa e Cláudia estão impressionadas com o que encontraram, e certamente serão novas “embaixadoras” dos produtos brasileiros no Espírito Santo. Em nosso jantar preparei um penne caseiro (feito pelo amigo e Chef Beto Sberse, empresário e proprietário da Vinhedos Refrigeração) ao molho de creme de leite ao funghi, que, acredito, foi aprovado pelos convidados, pois nada sobrou no pirex. Para acompanhar o momento e o prato, três vinhos tintos brasileiros (nesta sequência): o Syrah 2013 da vinícola Almaúnica, do Vale dos Vinhedos - Bento Gonçalves, o Cabernet Sauvignon 2011 Gran Vini da Chesini, de Farroupilha, e o Ancellota 2014 da Rotava, de Faria Lemos, distrito de Bento Gonçalves.


Sobre o exemplar da Almaúnica tenho uma posição ambígua, pois não nego a qualidade das uvas e dos vinhos desta empresa, entretanto, penso que a predominância dos aromas e sabores de carvalho nos vinhos suprime as características das cultivares, fazendo com que haja uma uniformidade entre os vinhos, o que é uma pena, no meu entender, pois se abre mão da complexidade por um estilo que agrada a pessoas que preferem uma bebida macia e fácil de beber, característica comum da maioria dos produtos chilenos e argentinos (à exceção dos grandes vinhos, os TOPs).


Infelizmente ainda não visitei a vinícola Chesini, pois a correria tem sido grande, mas em breve corrigirei este equívoco. Como é do meu costume, gosto de degustar os vinhos que ganho com a pessoa que me presenteou, retribuindo a gentileza, e neste caso, o amigo Fernando Martelli pôde também saborear este maravilhoso exemplar que havia me dado há um tempo. Certamente este Cabernet Sauvignon, o TOP desta cantina, embaraça a cabeça da gente, pois tecnicamente falando, esta cultivar, por ser de ciclo longo, não encontra na Serra Gaúcha um ambiente amigável para uma ótima maturação, por conta das chuvas de fim de fevereiro e março. Entretanto, vinhos como este nos mostram que em anos em que se consegue excelente maturação, a Cabernet Sauvignon resulta em vinhos excepcionais, encorpados e complexos, sem presença de pirazina (aroma de pimentão verde). Apesar de novo, capaz de amadurecer por muitos anos, após uma hora de aeração o Gran Vini nos deixou perplexos e felizes, ao sentirmos tamanha variedade de aromas como frutas negras (ameixas e mirtilo), chocolate, pimenta do reino, e ao fundo, como um leve complemento, um toque de amêndoas e baunilha, representando o carvalho. Na boca, muito corpo, mas taninos e acidez macios, elegantes, untuosos, e sem qualquer defeito. Persistente e capaz de harmonizar com pratos temperados e iguarias, que exigem um vinho à altura. Este Cabernet Sauvignon entrou na minha lista dos melhores que degustei até hoje. Meus parabéns aos irmãos Chesini.


Os vinhos da família Rotava fazem parte de um grupo de produtos que devem ser valorizados por todo enófilo que busca o diferente. O enólogo Paulo Rotava alia grande conhecimento técnico e simplicidade, elaborando vinhos encorpados e complexos, mas com preços excepcionais, que não refletem a qualidade dos seus vinhos. Sou um cliente assíduo desta vinícola, pois seus vinhos podem ser degustados em ocasiões descontraídas, como os das castas Marselan, Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, leves e mais herbáceos, podendo ser resfriados um pouco mais, ou em momentos que exigem vinhos complexos e de guarda, representados pelas cultivares Teróldego, Ancellotta e Tannat.


Encerramos a noite em grande estilo, com muito papo agradável, e com uma grande satisfação por saber que temos mais duas defensoras do vinho e do espumante do Brasil. Por fim, Larissa e Cláudia me garantiram que escreverão a história completa desta viagem para que eu possa publicar na Adega do Chamon e contar aos nossos leitores!!!