Douglas Chamon


Sou de Vitória – ES, 47 anos, capixaba, graduado, especialista e mestre em ciências econômicas pela UFES – ES. Fui professor de graduação e pós-graduação. Sou proprietário da Libra Consultoria Econômica e consultor de gestão de custos, financeira e de investimento de empresas. Enófilo e amante do vinho há 25 anos. Atualmente curso a graduação em Viticultura e Enologia no IFRS – Bento Gonçalves.



CHAMON E O VINHO


Aos 22 anos fui apresentado ao vinho fino pelos enófilos Gerson Matedi e Wanderli Monteiro. Neste ano, ao primeiro vinho do Brasil, o Baron de Lantier 1991, elaborado pelo respeitado enólogo Adolfo Lona.


Desde então, meu caminho como enófilo deu-se por duas estradas bem definidas:


Com o vinho internacional, por infindáveis degustações no Espírito Santo, na adega do Supermercado Carone, na casa de amigos, na região serrana do Estado – em Venda Nova do Imigrante (“no mesão” do Sítio Lorenção), em nossa casa, na “confraria” das quartas, cujas degustações às cegas eram um pretexto para celebrar a vida; e por viagens a países produtores, conhecendo vinícolas incríveis na Itália, Mendoza (AR), Chile, e Portugal, ressaltando os dias hospedados na Adega Ervideira, no Alentejo – PT, do amigo Duarte da Costa, com minha mãe, degustando seus vinhos maravilhosos.


 Com os vinhos brasileiros, o conhecimento se deu por visitas às vinícolas da Serra Catarinense, e, sobretudo, da Serra Gaúcha. A primeira viagem ao RS ocorreu em 1997, quando eu e meu irmão fomos recebidos pelo sr. Darci Dani, que nos levou, com grande dedicação, a diversas vinícolas. Depois, em média, duas vezes por ano eu me despencava para o RS para rodar, durante três dias, de manhã ao fim da tarde, atrás de vinícolas de Monte Belo do Sul a Flores da Cunha, priorizando os produtores micro, pequenos e médios, os quais, em sua maioria, com produção limitada, fazem vinhos de qualidade vendidos na própria vinícola. Inevitável, passei a amar esta terra como amo o Espírito Santo.


 A paixão pela Serra Gaúcha e minha vontade de fazer parte da realidade do mundo do vinho, convenceram-me a fazer o curso de graduação em Viticultura e Enologia no IFRS, em Bento Gonçalves, o qual me surpreende a cada aula. Após anos de programação, em 2014 retomo os estudos para fazer o Enem. Em fevereiro de 2015, ao fazer a matrícula, hospedo-me pela enésima vez na Pousada Ca’di Valle, no Vale dos Vinhedos, e digo aos proprietários, os amigos Jandir e seu filho Tiago, que gostaria de alugar uma casa ali. Três dias depois sou recebido como se da família fosse pelo casal Sberse, para morar em uma excelente casa, no coração do Vale dos Vinhedos. Hoje a lista de amigos é extensa, e para retribuir o carinho de todos e demonstrar o amor pela minha terra natal, de vez em quando faço uma moqueca capixaba, recebida com respeito e entusiamo.


 A Adega do Chamon é resultado desta peregrinação e dos muitos pedidos para que eu apresente o que vivo ao longo destes vinte anos, mostrando o trabalho destes produtores. Juntarei ao tema vitivinícola um pouco da vida daqui, pois sou carinhosamente convidado a participar de festas culturais e religiosas, costelões gaúchos, passeios, reuniões familiares, regados a muita comida, vinho, música e alegria; dicas de serviços que apioam a atividade vitivinícola; entrevistas com estudiosos da viticultura e da enologia (acadêmicos, técnicos e produtores); e as experiências de nossos leitores que ao degustarem e aprovarem um vinho brasileiro, terão o blog à sua disposição para apresentar fotos do momento e suas análises.


Convido a todos a me acompanhar nesta viagem surpreendente e prazerosa; TIM TIM.


Análise sobre a Vitivinicultura e o Vinho Brasileiro


Gostaria de esclarecer a você que acompanha a Adega do Chamon, o meu ponto de vista sobre o vinho brasileiro.  Não se trata de comparar qualidade com seus pares mundiais, mas de explicar o que me leva a apreciá-lo e valorizá-lo.


É sabido que até a década de 1990 o vinho fino europeu dominava o mercado mundial, encorpados, complexos, gastronômicos, de guarda e relativamente caros. Em meados daquela década, amplia-se fortemente a produção dos países do “novo mundo”, e no Brasil, o Chile se apresenta como o grande fornecedor de um vinho para se beber jovem, com pouco tanino e acidez, muito frutado e carvalho, mais alcoólico, adocicado no fim de boca e preço baixo.


Esta mudança teve um aspecto positivo ao tornar o vinho uma bebida acessível financeiramente e “fácil de beber”, expressão usada pelos novos consumidores. O lado negativo, no meu entender, foi a “institucionalização” de que estas características são as ideais para um bom vinho.


O vinho brasileiro, em especial os da região Sul, lembram os produtos europeus, o que me agrada. Discordo dos que dizem que o vinho brasileiro não tem capacidade de amadurecimento, pois já degustei dezenas de rótulos de vinícolas distintas com até 20 anos de garrafa, os quais, em sua maioria, mostraram-se explêndidos. Outro equívoco é o entendimento de que o Brasil não faz vinhos encorpados, ou que os bons vinhos são muito caros. Com relação à potência, este questionamento se encaixa aos vinhos feitos em grande escala, encontrados no mercado, e não à produção com foco na qualidade e pequeno volume, que exige esforço do enófilo para encontrá-lo (não estão no Vivino, em manuais com pontuação ou em degustações ao redor do Brasil ou do mundo). Para o preço, a maioria dos vinhos de qualidade encontrados no mercado são das grandes vinícolas, carregam um forte trabalho de marketing e têm o preço final acrescido pelo processo de comercialização. Apresento vinhos em todas as faixas de preço que superam facilmente um grande número de produtos importados na mesma categoria, desde que adquiridos diretamente das vinícolas. 


Por fim, em termos de estrutura produtiva, conheço vinícolas de diversos países, e digo que as empresas brasileiras, independente do tamanho, possuem os mais avançados equipamentos e técnicas para a elaboração dos seus vinhos, espumantes e sucos.