Muito se fala em vinhos de garagem e produção artesanal. No meu entender, penso que esta denominação se encaixa no trabalho dos enófilos Ronaldo Turri e Ivan Cini, em uma pequena garagem situada no distrito de Santa Bárbara, interior de Monte Belo do Sul – RS, um lugar que parece esculpido à mão.


Comumente tenho o prazer de ser convidado para participar do processo de elaboração dos vinhos e espumantes feitos por estes dois amigos, os quais, até o momento, degustam estes vinhos somente com suas famílias e amigos, sem interesse comercial.


Ao contrário do que muitos enófilos pensam, a elaboração de um vinho de qualidade não é fácil, pois envolve um delicado e detalhado processo produtivo que se inicia no parreiral e termina na garrafa, exigindo entendimento técnico e um mínimo de estrutura física e tecnológica. Por não serem enólogos, Cini e Turri recebem o apoio de amigos que atuam no segmento vitivinícola, os quais, gratuitamente, repassam o seu conhecimento.


Resultado: vinhos sem defeitos de vinificação (muito comuns, mas ignorados pelos enófilos por falta de conhecimento), e ótimas características organolépticas.


Ivan criou um nome e um rótulo para os exemplares que lhe cabem, e brincando com sua descendência italiana e ousadia de elaborar um vinho artesanal, nominou – o Sbaglio: erro, engano. De minha parte, digo que o “erro” para no nome, pois os cortes de Merlot com Ancellotta, e Merlot com Alicante Bouschet são maravilhosos.  


Apesar de a cultivar Merlot superar o mínimo exigido por lei de 75% para se denominar um vinho de varietal, Ivan anuncia as demais uvas para deixar claro que sentiu a necessidade de agregar características ao vinho Merlot. Como tive a oportunidade de provar o 100% Merlot, entendo que a intenção foi acertada.


Ambos os rótulos foram degustados com pratos deliciosos, pois para mim o bom vinho precisa ser gastronômico, possuir bom ataque de boca e boa acidez, não sendo muito alcóolico, adocicado de fundo de boca, com baixa acidez e excesso de madeira.


De corpos leve a médio, colorações rubi escura - aportadas pelas variedades tintórias Ancellotta e Alicante Bouschet, no olfato aromas de frutas vermelhas e pretas maduras, boca frutada e macia, mas com taninos e ácidos presentes, e persistência no final, unindo a elegância da Merlot à potência das italiana e francesa. Acompanho a evolução e melhora destes vinhos há um tempo, e percebo o potencial de envelhecimento, apesar de ambos estarem excelentes no momento.


Parabéns Ivan Cini e Ronaldo Turri, por nos mostrar vinhos de ótima qualidade, em sua essência, sem química e madeira em excesso!!!