Algumas vezes tive a satisfação de ser chamado pelo produtor Vilmar Bettú para avaliar seus vinhos que estavam há anos amadurecendo, e que, caso aprovados, seriam engarrafados e colocados à venda. Desta vez o convite foi diferente. Analisar 4 vinhos tintos vinificados em 2015 (Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Malbec) e 15 diferentes cortes feitos com estes exemplares, sendo os escolhidos destinados ao amadurecimento. Para este desafio convidei a minha mãe, dona Boneca, enófila experiente e que daria a visão feminina.


Aleatoriamente Bettú havia definido os cortes com percentuais de 25%, 50% e 75% com dois, três ou os quatro vinhos. A primeira etapa do processo foi a medição dos 15 cortes em uma jarra de medida, os quais foram transferidos para garrafas pequenas e enumeradas. 19 taças foram também marcadas com os respectivos números dos vinhos nela colocados.




Para a minha surpresa, Bettú me informa que não participaria, pois havia degustado vinhos com  clientes que recebera há pouco, e não estaria apto à mais uma degustação.


Seguindo as regras básicas de uma degustação técnica, foram avaliadas as características visuais, olfativas e organolépticas dos vinhos, como a cor e sua intensidade, o equilíbrio geral, a evolução após um ano de vinificação, aromas, tanino, acidez, e outros detalhes. Foram duas horas e meia de muito prazer e seriedade. Bem ao seu estilo, Bettú não nos informa a composição dos cortes, e que um dos nossos desafios seria a apresentação da composição base (geral) dos cortes, o que tornou a degustação ainda mais interessante e agradável.


Para facilitar o nosso trabalho, fizemos uma análise minuciosa dos 4 exemplares varietais, compreendendo as propriedades de cada um que mais influenciariam as misturas. Felizmente a tática deu certo, e à exceção de um, todos os demais cortes foram bem identificados. Outro fator que facilitou este bom índice de acerto, foi a enorme diferença existente entre os 4 varietais, as quais eram facilmente identificadas em cada mistura.


Uma questão interessante neste tipo de evento é a ideia de que se juntamos coisas boas, independente da ordem e quantidade, o resultado é positivo. Assim como na culinária, que exige combinações certas de temperos e alimentos, também é o vinho. Apesar de os 4 vinhos base estarem excelentes, as distintas características de cada um fizeram com que algumas misturas ficassem incríveis, com grande equilíbrio, capazes de gerar vinhos maravilhosos agora ou no futuro, porém, outras resultaram em um mix desequilibrado, sem qualquer harmonia no paladar e aroma.


De minha parte, ao analisar cada amostra, procurava os detalhes de sua composição, buscando definir tecnicamente o que a tornava boa ou ruim. Minha mãe, com a vivacidade feminina, assim que degustava, resumia: “nossa, adorei este”; “este é maravilhoso”; “não gostei, muito ruim”. Apesar das metodologias distintas, não divergimos em nenhuma amostra sequer. 



Ao terminarmos a avaliação, peguei nossas anotações e disse a Bettú que enviaria o relatório final em uns três dias; adianto que além dos 4 varietais, 5 ou 6 amostras estão aptas, ao nosso ver, para fazerem parte do maravilhoso mundo do vinho.