Publicado em 12/08/2017

A evolução do vinho e do espumante fino no Brasil se confunde com a história centenária da Vinícola Peterlongo, de Garibandi – RS. Penso que poderia separar esta longa jornada em três momentos distintos: i) da fundação a meados da segunda metade do século XX; ii) de meados da segunda metade do século a 2002; iii) a partir de 2002, com a aquisição da empresa pelo empresário Luiz Carlos Sella.


Referência de qualidade em espumantes e vinhos finos nas primeiras décadas de sua existência, por volta dos anos 1970 a empresa muda o seu foco, apresentando ao mercado produtos elaborados com uvas comuns, da espécie Vitis labrusca ou híbridas, de qualidade inferior, com o foco de elevar o giro de vendas, acreditando que o aumento de faturamento resultaria em maiores lucros, o que, como consultor econômico, afirmo ser uma correlação que não existe automaticamente. Aos poucos a empresa se desequilibra financeiramente, sendo comprada um pouco antes de sua falência, em 2002, pelo empresário Luiz Carlos Sella. Retomando a filosofia do seu fundador, Manoel Peterlongo, Sella e sua equipe focam na elaboração de vinhos e espumantes finos de qualidade, com cultivares Vitis viníferas.


É necessário um árduo caminho para reconquistar a confiança dos enófilos exigentes, que passaram a associar a empresa a produtos festivos e simples, principalmente o Espuma de Prata. Sou um exemplo desta questão.


Nos últimos vinte anos que venho à Serra Gaúcha para visitar vinícolas, somente em 2017 fui à Peterlongo, pois Fernanda Alves (Adega do Chamon), agendou com Luiz Sella uma visita, sem que eu a solicitasse. No dia tivemos a companhia da amiga brasiliense, colunista de vinho e gastronomia da Revista de Luxo e sócia do Brinda Brasil, Emília Carvalho, que sempre nos prestigia quando está em Bento Gonçalves. Assim como eu superei o preconceito, asseguro que todos que degustarem os novos produtos das linhas finas da Peterlongo se surpreenderão com a qualidade.


A Recepção


Por Sella estar em uma reunião inesperada, fomos recepcionados por João Ferreira, gerente, que com muita atenção nos conta o processo de reestruturação da empresa e a história da Peterlongo, ressaltando o desejo do atual proprietário em manter viva a memória da família e do seu fundador, Armando Peterlongo.



Por ser um empresário responsável por inúmeros negócios, não esperava que Luiz Sella viesse ao nosso encontro, o que entenderia perfeitamente. Entretanto, alguns minutos após o início de nossa visita, ele se junta ao grupo, por volta das 10h, e permanece conosco até às 15h, quando se dirige a Porto Alegre para pegar um voo que o levaria a Santa Catarina.


Ficou claro que Sella não somente cumpriu um compromisso com Fernanda, mas teve prazer em nos receber, tamanha era a paixão com que falava da empresa e dos projetos futuros. A elaboração de produtos de elevado padrão técnico e de qualidade exigiu ampliação do quadro de enólogos, inclusive com apoio de profissional francês, além da participação em exposições e degustações externas, e atividades internas para receber turistas e enófilos.


A Untuosidade do Prédio da Peterlongo


O prédio da empresa impressiona pela estrutura e beleza, demonstrando o cuidado com a conservação de um patrimônio cultural da cidade de Garibaldi, e de todo o Brasil. A vista externa do castelo e dos parreirais ao redor exige contemplação.


Segundo a arquiteta e enófila capixaba Larissa Memmeli, em visita à vinícola, e sem um estudo científico que confirmasse sua percepção, “o casarão teria um estilo eclético, que mistura elementos neoclássicos com arquitetura colonial brasileira. A parte externa de pedra, o telhadão colonial, o piso inferior, usualmente de material mais rústico, e algumas janelas, remetem à arquitetura dos colonos italianos no Brasil, como algumas casas do Caminhos de Pedra em Bento Gonçalves. Os pavimentos superiores de material e adornos mais refinados, parecem confirmar o estilo renascentista dos palácios europeus”. De minha parte, ignorante em arquitetura, resta admirar.


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O museu e a cantina


Na parte inferior da construção se encontram a parte de produção, armazenagem e um pequeno museu com equipamentos antigos e que retrata a história da cantina. A estrutura em pedra basalto é bela, e apesar da cor escura e sóbria, aconchegante, e nos faz voltar no tempo, imaginando como seria a elaboração dos primeiros espumantes e vinhos na vinícola.


Depois, um tour pelos corredores da cantina para conferir a ótima estrutura produtiva e tecnológica. Degustamos vinhos em elaboração nos tanques de fermentação e armazenamento, e comprovamos suas qualidades. Antes da degustação de alguns exemplares, visitamos a cave subterrânea, na qual os espumantes são armazenados.


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A cave de armazenamento de espumantes e o túnel com garrafas históricas – o museu do vinho


Pulpitres que amparam as garrafas durante a remoagem para o acúmulo dos restos de levedura autolisadas no bico, dividem o espaço com um painel que apresenta os rótulos de produtos elaborados pela empresa desde a sua fundação. Um ambiente empolgante, com pouca iluminação, cuja decoração se completa com uma série de canos transparentes com água corrente. Sella e João nos explicam a história do lugar, os diversos espumantes em elaboração, e os projetos em andamento. Por estarmos em um pequeno grupo, pudemos atravessar o estreito e longo túnel que liga a cave subterrânea ao pátio da empresa, e que comporta pulpitres com garrafas antigas, relíquia da empresa. E neste espaço, em 04 de outubro de 2017, a Peterlongo abre ao público o museu do vinho, com peças objetos raros da vinícola e ofertados pela comunidade, sendo considerado o novo tour enoturístico da Peterlongo.



A Degustação de vinhos e espumantes Peterlongo


Depois fomos para a parte superior do prédio frontal, para a degustação de vinhos e espumantes. Um local agradável, com mesas para a recepção de enófilos e turistas. Luiz nos apresenta os novos rótulos da empresa, os quais retratam a atual filosofia.


A linha de vinhos Terras pode ser classificada como de entrada, com o intuito de oferecer produtos finos, de boa qualidade, mas jovens, de corpo leve e frutado, para momentos descontraídos. Os vinhos Merlot, Cabernet Sauvignon, Tannat e o Assemblage, apesar da pouca idade, mostram - se macios e agradáveis, fazendo jus à proposta. Podemos resumi – los como vinhos que buscamos quando pensamos em unir o prazer ao bolso.



Apesar da subida de patamar em termos de estrutura, corpo e complexidade dos vinhos Merlot e Cabernet Sauvignon, a linha Armando Memória, como o próprio nome sugere, lançada em homenagem ao patriarca da família Peterlongo, apesar de Reserva, pode ser também considerada como uma gama de produtos que possui um bom preço de venda. A passagem por barrica de carvalho proporciona complexidade, mas não domina, o que demonstra competência em seu uso. No aroma, frutas vermelhas e pretas, com acidez equilibrada e gastronômica, taninos maduros, facilitando a degustação, apesar da juventude.



A degustação dos vinhos mostra que a Peterlongo pretende competir no mercado em uma faixa de preço e produto comercial, sem a oferta de um vinho ícone, de guarda. Isto por que, o objetivo é manter a história da empresa, conhecida por ser a primeira a elaborar o espumante no Brasil, tendo o direito de manter o nome Champanhe em seus rótulos. A diversidade e qualidade destes produtos impressiona, e claro, para nos manter sóbrios, não degustamos toda a linha no dia desta visita; vez ou outra provamos outro exemplar, sendo todos muito interessantes. Focarei nas duas que bebemos junto com Sella, representando duas propostas distintas.


De entrada degustamos o espumante da uva Prosseco, que representa fielmente as características desta cultivar, com aromas de frutas cítricas, muito frescor, corpo leve e acidez macia. Um espumante para se beber em dias quentes, à beira da piscina ou na praia, com pratos leves de frutos do mar ou entradas.



Por fim, a rainha da vinícola, o espumante Elegance Nature. Há também a sua versão Brut, que representa com grande categoria as características técnicas deste produto, com mais concentração de açúcar (pela legislação entre 8,1 a 15 g/L de açúcar), com maior acidez, para equilibrar, e, quando feito pelo método tradicional, com a segunda fermentação em garrafa, adquire grande complexidade. Sabemos que o estilo Brut é ainda o mais consumido, mas para o meu paladar, nada se compara a um grande nature, não somente pela sua maior complexidade, mas por ser um produto com baixo teor de açúcar residual, até o limite de 3 g/L, permitindo com que sintamos o paladar do produto com muito mais facilidade.


Ressalto que não vejo nenhuma necessidade de comparar vinhos e espumantes brasileiros com produtos importados para ressaltar suas qualidades, pelo contrário, pois questiono produtores que buscam imitar outros estilos, ao invés de construir uma tipicidade para seus produtos. Porém, tratando - se do espumante Peterlongo Nature Elegance método tradicional, elaborado com as castas Chardonnay e Pinot Noir, sou obrigado a fazer uma referência que, claro, é bastante positiva: este exemplar possui as características de um excelente champanhe francês.


Com o intuito de se elaborar um produto macio e elegante, e por ser um nature, o que permite menor acidez final, o vinho base é elaborado com uvas de boa maturação tecnológica e fenólica, o que lhe confere maciez e suavidade. Após a segunda fermentação em garrafa, para a geração do CO2, o vinho é mantido em contato com as leveduras em autólise por 24 meses, e com o toque final do licor de expedição, segredo de cada enólogo, obtém - se um espumante com coloração amarelo - palha e perlage intensos. Aromas de manteiga (acredito da fermentação malolática), pão, amêndoas, nozes, caramelo e leve tostado. No paladar, untuoso, volumoso e persistente, com boa acidez, que lhe confere frescor, mas macio e elegante, suave. Ao contrário dos produtos leves e frescos, sua estrutura e complexidade tornam desnecessário o resfriamento excessivo, o que permite extrair-se toda a sua riqueza de aromas e sabores.



É mais uma prova de que o novo proprietário desta histórica vinícola, Luís Carlos Sella, busca retomar o prestígio e a qualidade que a Peterlongo e seus produtos tinham na primeira metade do século XX, merecendo nossos aplausos, e sobretudo, nosso respeito, entendendo que a Peterlongo deve ser restabelecida ao patamar de empresa de excelência, em todos os sentidos.



Até o nosso próximo encontro!!