A escrita desta matéria foi bastante prazerosa, pois é muito bacana apresentar alguns jantares do Clube do Bolinha, reunião de amigos que ocorre semanalmente na sede da Associação dos Empregados da Embrapa. Além da descontração e de saborear vinhos, espumantes e comidas deliciosas, para mim são momentos de grande aprendizado, pois fazem parte deste seleto grupo técnicos/especialistas em uva e vinho da instituição (enólogos e agrônomos), e produtores experientes do mundo do vinho. O nome “bolinha” advém do fato de os frequentadores serem homens, entretanto, a presença das famílias é sempre bem vinda, quando um ou outro decide levar. Assim, sempre que posso levo a minha mãe, dona Boneca, a qual é recebida com muito carinho e amizade por todos.


Nesta matéria separo algumas noites, dentre elas, as que tive o prazer de ser o responsável pela cozinha. Como toda reunião de gaúchos, o churrasco é a refeição mais presente, de gado, ovelha, porco e frango, mas pratos diversos são elaborados pelos participantes, como codornas, coelhos, paellas, peixes...basta um dos amigos se oferecer que a proposta é aceita com entusiasmo. Com relação às bebidas, são levadas aleatoriamente pelos frequentadores, e em especial, pelos produtores que participam do grupo. Dada a variedade de eventos e de rótulos nesta matéria, não farei análises como normalmente faço, somente apresentarei alguns dos exemplares degustados.


Paella do Paulão


Quando feita com maestria, a Paella é um dos pratos mais deliciosos que já provei, e foi o que aconteceu com esta preparada pelo amigo e membro Paulão. O que me impressionou foi a capacidade que este prato tem de se harmonizar com vinhos brancos e espumantes, ampliando a sensação de bem-estar oferecida pelas bebidas.



O Bacalhau do Taffarel


O bacalhau preparado pelo mestre João Carlos Taffarel, proprietário da vinícola Cave Antiga e enólogo especialista da Embrapa foi um manjar dos deuses, como diz a minha mãe. Um prato encorpado que se encaixou perfeitamente com os exemplares servidos.



O Churrasco – feito por muitas mãos


Não pode faltar uma noite de churrasco, é claro. Quantidade pequena em se tratando de gaúchos, mas muito bem feitos, pois a qualidade da carne no Rio Grande do Sul é excelente, tornando churrasco informal em uma iguaria. Nestas noites, os vinhos tintos são os mais degustados.



Moqueca Capixaba – A cultura do ES valorizada na Serra Gaúcha


Tive a oportunidade de fazer duas moquecas capixabas para o Clube do Bolinha. É muito gratificante mostrar um pouco da minha cultura para os amigos do Rio Grande do Sul, e a recepção e o carinho pelos pratos são sempre muito grandes. Entretanto, ao contrário de outras regiões do Brasil, o gaúcho não é acostumado a especiarias “exóticas”, e a utilização do coentro, do tomilho, da hortelã, do cominho, curry, noz moscada, pimenta síria, zaatar, endro, páprica, entre outras, é um grande desafio, pois a possibilidade de rejeição é grande. É necessária parcimônia na administração para não assustar.


Com relação à moqueca, a maior dificuldade é encontrar os ingredientes, pois em Bento Gonçalves não se acha coentro nos supermercados ou fruteiras (hortifrúti), sendo necessário se plantar em casa ou buscar em Caxias do Sul, bem como, não há peixe do mar fresco em postas, apenas em filés. Resolvo esta situação trazendo peixe do Espírito Santo ou fazendo com filé de anjo (comprado aqui), um tipo de cação, que por ser grosso não se desmancha ao cozinhar. O urucum, com o qual fazemos uma pasta colorífica (não gosto de usar coloral), trago do ES. De qualquer forma, as dificuldades tornam o momento ainda mais especial, e a valorização do prato mais forte. Para harmonização, espumantes e vinhos brancos.



Culinária Oriental também representada


Fiz o cordeiro à moda árabe para reverenciar a minha ascendência libanesa de pai e mãe. Desconhecido dos amigos gaúchos, e por levar hortelã, zaatar, pimenta síria e coalhada libanesa (esta feita por nós), foi mais um desafio a ser superado. Temperado com dois dias de antecedência e marinado na coalhada por 6 horas, é cozido na panela até a carne amaciar, sendo servido com grão de bico e arroz. Comentários positivos aliados à excentricidade do prato foram inúmeros, sendo os 9 kg de pernil e paleta degustados com prazer pelos amigos, com o acompanhamento de vinhos tintos e espumantes brasileiros. Nesta noite tivemos a companhia de minha mãe, dona Boneca, Fernanda Alves (Adega do Chamon) e Margareth Comachio, esposa do membro Valtair Comachio. Muita alegria e descontração marcaram a noite.



Caros amigos e leitores da Adega do Chamon, esta matéria de cunho mais informal tem o intuito de mostrar que o vinho fino e o espumante também podem estar presentes em encontros descontraídos e simples de amigos, desmistificando a ideia de que estas bebidas se restringem a ambientes formais e técnicos. De minha parte, eu os degusto em qualquer ambiente, em qualquer hora, sem qualquer preconceito. Ajude-nos a difundir este pensamento.


Até nosso próximo encontro!!!