Ibravin relata danos ambientais e financeiros provocados pela deriva de herbicida utilizado nas lavouras de cereais. Além da uva, agrotóxico também está afetando produtores de maçã, oliveira, citrus, erva-mate, mel, fumo, sementes de hortaliças e outras culturas - Data: 18/04/2019


                 


O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) enviou, no início deste mês, ao Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul, um estudo sobre os prejuízos causados pelo herbicida 2,4-D à produção vitivinícola do Estado. Os danos decorrentes da deriva da aplicação do agrotóxico utilizado especialmente em lavouras de cereais revelam uma redução de, pelo menos, 32% na safra de uvas 2017/2018 nas regiões mais afetadas pela presença do herbicida, onde são estimados prejuízos de quase R$ 100 milhões em 2018.


Com base neste estudo, o setor vitivinícola solicita a proibição do uso do agrotóxico hormonal 2,4-D em todo o Estado, sem que sejam criadas zonas de exceção, já que a deriva do produto químico foi encontrada em todas as regiões vitivinícolas gaúchas. Além disso, se desconhecem estudos que comprovem as condições ideais de aplicação do 2,4-D nas diversas áreas produtivas, já que é um produto volátil, de fácil deslocamento para outras zonas através do vento, podendo ser levado a quilômetros de distância do ponto-alvo.


O levantamento entregue ao MP foi feito a partir de informações coletadas com 62 viticultores e empresas e cooperativas vinícolas de todas as zonas produtoras do Rio Grande do Sul, porém, com maior gravidade em alguns municípios da Campanha, dos Campos de Cima da Serra, do Centro-Oeste, da Fronteira Oeste, da Metade Sul, do Noroeste e do Vale Central. Assim como na vitivinicultura, a deriva do herbicida hormonal está afetando produtores de outras culturas, como maçã, oliveira, citrus, erva-mate, mel, fumo e sementes de hortaliças.


Além da coleta de informações com estes 62 produtores – relatadas espontaneamente por eles ao Ibravin e apresentadas no dossiê –, a Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR/RS) também encaminhou ao Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam)  e ao Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam) e ao Núcleo de Meio Ambiento do MP Estadual – ligados ao MP Estadual – um relatório técnico sobre os impactos dos herbicidas hormonais nos cultivos sensíveis a estes agrotóxicos. Foram constatadas que das 81 amostras apuradas pela SEAPDR/RS, 69 delas (85,2%) apresentaram contaminação por deriva do 2,4-D, o que sugere que os prejuízos podem ser ainda maiores.


Desde 2015, o debate sobre o tema vem sendo levado pelo Ibravin, junto com representantes ligados a cadeia produtiva da uva e do vinho, às esferas públicas pertinentes, sem que uma solução efetiva tenha sido tomada. Mais de 100 reuniões foram realizadas desde então, sendo que só em 2018 foram cerca de 50 – incluindo com produtores e associações setoriais, cadeias produtivas envolvidas, SEAPDR/RS, MP, entidades de pesquisas e extensão e sindicatos nacionais de agroquímicos e vendedores desses produtos – com a apresentação de relatos, fotos, laudos e outros documentos comprovando os impactos diretos pela derivação do 2,4-D, considerado, no Brasil, como extremamente tóxico (Classe I) na sua fórmula como concentrado solúvel.


Embrapa corrobora posicionamento do setor vitivinícola


Uma nota técnica divulgada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – desenvolvida em conjunto pelas unidades Clima Temperado (Pelotas/RS), Uva e Vinho (Bento Gonçalves/RS), Trigo (Passo Fundo/RS), Pecuária Sul (Bagé/RS) e Soja (Londrina/PR) – mostra ainda que, na pré-liberação da utilização do 2,4-D no Brasil, não houve estudos técnicos prévios que assegurassem a integridade de outras culturas: “Durante a fase de registro dos herbicidas hormonais foi desconsiderada a questão da volatização e/ou deriva, o que acarretou em ausência de informações e procedimentos de controle para esse efeito”, aponta o documento de agosto de 2018.


O estudo da Embrapa observa ainda que “a deriva durante a aplicação de agrotóxicos (por vaporização e/ou gotículas do produto, escorrimento ou deslocamento para outras áreas através do vento) faz com que muitos produtos sejam desviados do seu alvo, podendo causar fitotoxidade em áreas vizinhas. Especificamente no caso dos herbicidas, como os hormonais referidos, a elevada volatilidade e a deriva associada estão na base da dificuldade de conter os casos de danos às plantas sensíveis, mesmo com a adoção de técnicas consideradas adequadas na aplicação do produto”.


Aplicado especialmente no pré-plantio nas lavouras de soja, ou seja, justamente na época de floração dos vinhedos – antes da formação do grão –, o herbicida 2,4-D atinge o sistema vegetativo do parreiral, diminuindo a sua produtividade ou até, em casos mais graves, podendo levar à morte da planta. Por não atingir diretamente o fruto, o agrotóxico não deixa resíduos e nem prejudica os produtos vinícolas processados, como vinhos, espumantes e sucos.


Os vitivinicultores atingidos buscam a suspensão do uso deste produto até que medidas concretas possam ser encontradas, de forma que não prejudique ainda mais a produção de uva e o cultivo de outras frutas. Além de perdas financeiras milionárias em decorrência da morte de grandes áreas de vinhedos, o agroquímico 2,4-D está gerando danos ambientais, em que, em alguns casos, apresentam-se irreversíveis.


Localização do problema


Os prejuízos causados pela deriva dos 2,4-D à vitivinicultura se fazem presentes em todas as regiões em que há produção de uvas no do Rio Grande Sul, com maior gravidade nos municípios de: Bagé, Cacique Doble, Candiota, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Entre-Ijuís, Jaguari, Lavras do Sul, Maçambará, Monte Alegre dos Campos, Muitos Capões, Pinheiro Machado, Piratini, Rosário do Sul, Santana do Livramento, Santiago, São Borja, São Joaquim do Polêsine, São Lourenço do Sul, Silveira Martins, Sobradinho e Três Palmeiras.