Publicado em 26/05/2017

Apesar de elaborar vinhos há muitos anos, recentemente a Milantino investiu em uma estrutura física de varejo capaz de receber enófilos e turistas em uma das mais belas cantinas do Brasil, condizente com a qualidade dos seus produtos. Trata-se de uma empresa que retrata fielmente as competências de seus sócios: Luís Milani, que dedica a vida ao cultivo da uva e à vinificação, e Sadi Andrighetto, empreendedor e comercial.


Em minha peregrinação na busca das boas vinícolas do Brasil nas últimas duas décadas, é comum descobrir novos produtores a partir de indicação, e este foi o caso da Milantino, indicada pelo amigo e Guia Turístico profissional da Serra Gaúcha, Fernando Martelli.


Com grande diversidade, a Milantino proporciona rótulos jovens e envelhecidos, de estruturas e cultivares distintas. É um caleidoscópio de opções que agradam enófilos experientes e iniciantes no mundo do vinho.


A CANTINA


Em uma das degustações que lá fiz, eu, Fernanda Alves e Fernando Martelli fomos recebidos por Luís Milani. Nossa visita começa pela cantina, com galpões de vinificação e armazenamento, que abrigam equipamentos e barricas tecnologicamente avançados, os quais garantem a qualidade final dos produtos.



VAREJO E SALAS DE DEGUSTAÇÃO


O varejo e as luxuosas e aconchegantes salas convidam à degustação de bons vinhos e espumantes. Com um quadro de funcionários competentes, os visitantes se sentem a vontade para passar momentos agradáveis com a família e amigos.



As salas de degustação são divididas em duas, sendo a primeira mais informal, podendo abrigar mesas para receber grupos de poucas pessoas, ou ser um balcão (estilo bar), tornando a degustação ainda mais descontraída.


A sala de degustação principal é bela e ampla, com uma grande lareira, vitrais com vista para a área externa, e grandes mesas para o recebimento de grupos maiores. Dada a diversidade de vinhos e espumantes, as degustações podem durar até três horas (dependendo da “energia” do grupo), e transcorrem de maneira agradável e tranquila. Perfeito ambiente para se analisar e discutir as características e qualidades dos vinhos.



A DEGUSTAÇÃO


Até 18 produtos podem ser servidos aos que visitam a Milantino. Espumantes brancos e rosés, brancos e tintos tranquilos, todos possuem em seus rótulos desenhos de artistas plásticos, demonstrando o esmero em cada etapa. Outra importante proposta que me agrada muito é a utilização competente do carvalho, que não predomina, mas confere complexidade e amadurecimento, respeitando os aromas e sabores varietais e da vinificação. Sou um crítico contundente de enólogos que permitem que seus vinhos apresentem somente características de carvalho, adocicados e fortes, com o intuito de agradar uma parte do mercado consumidor que copia o padrão do enófilo norte americano.



Tive a oportunidade de degustar todos os rótulos da empresa em momentos distintos, mas farei a apresentação de alguns exemplares, dando uma ideia geral das características.


Malvasia de Cândia e Chardonnay

O branco Malvasia de Cândia é muito aromático – erva doce – erva sidreira – manjericão  (típico da cultivar), com boca potente, boa acidez, equilibrado. Ao contrário, o Chardonnay é um vinho leve, de aromas sutis, boca macia e baixa acidez, conforme o interesse do enólogo Luís Milani, que enfatiza que se trata de um vinho que pode ser degustado em qualquer hora do dia.

Rosé Merlot


Sou um apreciador de vinhos rosés, mas não gosto dos leves e ligeiros. O rosé Merlot Milantino alia elegância, potência e persistência, aromas e sabor de frutas vermelhas, boa acidez e gastronômico, capaz harmonizar com pratos de carnes vermelhas, brancas e frutos do mar.


Merlot rosé. Bela coloração salmão de média intensidade.


Fugindo à filosofia de mercado que obriga a manutenção de um padrão para os vinhos, a elaboração dos tintos Milantino ocorre conforme a safra e a intenção do enólogo, proporcionando aos clientes a opção de escolher entre vinhos leves e encorpados da mesma cultivar, e vinhos distintos em cada safra.


Merlot 2012 e Merlot 2004.


O mais novo mostra taninos e acidez macios, frutas vermelhas, de fácil degustação. O mais antigo (meu preferido), apesar do maior tempo de amadurecimento, é encorpado, mantém taninos e acidez vivos, aromas de frutas negras e especiarias, exigindo experiência do enófilo e harmonização com pratos condimentados.


Ancellotta e Teroldego - 2006


Ancellotta e Teroldego, cultivares italianas tintórias, com grande concentração de antocianas, polifenól que fornece a coloração vermelha às frutas (do amarelo/vermelho ao violáceo, conforme a concentração e o PH do meio), extremamente tânicas e com boa presença de ácidos (tartárico e málico), são usadas em cortes para ampliar a coloração e a estrutura de alguns vinhos na Europa, no Brasil têm sido usadas, com grande sucesso, na elaboração de exemplares varietais (cuja composição tem no mínimo 75% de uma uva, segundo a legislação), comumente de guarda, havendo necessidade de se amadurecer por alguns anos em tanques de aço inox e barricas de carvalho, e também na garrafa, aonde também haverá a polimerização de taninos e esterificação de ácidos, tornando os vinhos macios e complexos. A sensação de intensa adstringência e ataque ácido em seus vinhos, quando jovens, podem gerar reações negativas em pessoas que desconhecem suas características.


É por isso que os vinhos destas cultivares da Milantino são guardados por anos em caves antes de disponibilizados à venda, resultando em exemplares que mesclam potência X complexidade X elegância, por sua meia idade. A degustação do Teroldego e Ancellotta 2006 nos remete à uma coloração rubi intensa, com aromas de frutas negras maduras, toques de carvalho e especiarias, com paladar macio, mas persistente e gastronômico, com taninos polimerizados, macios e untuosos, e acidez mediana. Acredito se tratar de dois vinhos que o enólogo Luiz Milani fez pensando em si, por ser apreciador de vinhos elegantes e macios.



Tannat - 2005 e 2006


Ao degustarmos os Tannat 2005 e 2006, foi interessante avaliarmos a diferença de paladar que eu e Luís Milani temos com relação aos estilos de vinho. Vinhos macios e aveludados, características que atraem ao enólogo da Milantino; potência, estrutura e persistência, o meu estilo de vinho. Estes dois exemplares nos colocaram em fronts distintos.


Fã do Tannat 2006, Luís não poupa elogios à sua maciez e suavidade. Aromas frutados e com toques de carvalho, paladar aveludado, taninos e acidez leves, um vinho em sua plenitude de maturação. De minha parte, preferência pela vitalidade do Tannat 2005, que apesar de mais velho, mostra taninos e acidez vivos, ainda com possibilidade de amadurecer alguns anos em garrafa. Aromas terciários, boca potente e persistente, é gastronômico e capaz de harmonizar com pratos temperados e fortes. Esta diversidade torna a Milantino uma das mais intrigantes vinícolas que conheço.



Milantino Gran Reserva 2005


O corte das potentes cultivares Ancellotta e Tannat, com a elegante e complexa Merlot, resultou em um grande vinho, em todo o sentido da expressão. De difícil descrição, dadas as mudanças de aromas e sabores ao longo da degustação, indo de características primárias que ainda se mantêm das cultivares, às aportadas pela vinificação, maturação e envelhecimento. Um misto de frutas negras maduras e secas, notas de baunilha e tostado, e presença de especiarias como pimenta preta e cravo da índia. No paladar taninos e acidez vivos, persistentes. Ganhador de prêmios em concursos reconhecidos, mundialmente, pela seriedade e competência técnica dos avaliadores, impressiona o potencial de guarda deste vinho, o qual se mostra capaz de amadurecer por mais alguns anos em garrafa. Certamente um ícone da enologia brasileira.



Milantino Gran Vino 2008


O resultado alcançado com o exemplar 2005 fez com que a Milantino elaborasse outro vinho com as mesmas uvas em 2008. Assim como o antecessor, mais um excelente exemplar, porém, a diferença na composição das uvas alcançou o equilíbrio em um novo patamar; explico. Ao contrário da estrutura e forte corpo do anterior, o 2008 é elegante e redondo, mas sem deixar de ser complexo. Com aromas florais, frutados, frutas secas, amêndoas e castanhas. No paladar um néctar, untuoso, mas sem adocicado de fundo de boca que o deixaria enjoativo. Taninos polimerizados dão maciez ao vinho, e ácidos refrescantes completam o equilíbrio. Um vinho para se pensar, refletir.



Espumantes


Por fim, espumantes Brut, Extra Brut, brancos e rosés, completam o portfólio desta vinícola, seguindo o padrão de qualidade que torna o Brasil reconhecido mundialmente neste tipo de vinho. Aliando o frescor característico do produto brasileiro, com a complexidade do método tradicional, são aromáticos, refrescantes e volumosos em boca, acompanhando pratos diversos. Apesar de os vinhos tranquilos serem o foco da Milantino (na minha avaliação), seus espumantes compõem com maestria a sua carta, fechando com chave de ouro uma diversidade de produtos invejada.



RECEPTIVIDADE


Encerro esta matéria com algumas fotos que confirmam que a visita à Milantino é um capítulo à parte, pois une uma recepção competente a um belo lugar.



Até nosso próximo encontro!!!