Pequena vinícola no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves – RS, a Cavas do Vale é conduzida pelos irmãos Irineu e Oscar Brandelli, pessoas simples, que carregam o estilo italiano de seus antepassados, amigos e hospitaleiros. O cultivo das uvas e o processo de vinificação mesclam a tradição artesanal dos colonos da Serra Gaúcha, com os avanços da enologia moderna, resultando em vinhos com tipicidade clássica, que respeitam as características das uvas e da região, sem transformações químicas que moldem os produtos aos padrões atuais de boa parte dos enófilos, que exigem vinhos prontos, macios e com excesso de madeira. Os vinhos da Cavas do Vale são estruturados e potentes, com boa capacidade de guarda, sem e/ou com mínima influência da madeira, o que garante complexidade aromática e de sabores.


O 2005 Lucindo reflete a paixão, o zelo e a técnica de elaboração de vinhos dos Brandelli. Há alguns anos acompanho a evolução deste exemplar, o qual se apresenta cada vez melhor, com complexidade incrível. Por duas ocasiões foi o Cabernet Sauvignon mais antigo em degustações às cegas que realizei com vinhos brasileiros desta cultivar. Em ambas as oportunidades (Degustação Confraria I'Bei e Degustação AMAVI), as avaliações dos confrades e confreiras foram excelentes, confirmando a minha expectativa de que este vinho agradaria aos degustadores.


Apesar de seus doze anos de vida, ainda possui grande capacidade de guarda, com taninos e ácidos presentes, capazes de lhes dar anos de vida a partir de suas polimerizações e esterificações. A potência do vinho em aromas e sabores impressiona, o que nos faz pensar (quando às cegas) ser um vinho mais jovem, apesar de sua coloração vermelho rubi com traços claros, resultado da evolução das antocianas. Costumo não fazer comparações, mas a sua similaridade com potentes vinhos italianos e portugueses é notória, exigindo experiência do degustador, podendo ser complicado para os acostumados aos rótulos macios e redondos latinos e norte americanos.


Nos aromas frutas vermelhas e negras maduras (in natura) de vinhos mais jovens, mesclam-se às frutas secas e especiarias de vinhos envelhecidos, ricos em ésteres e demais compostos resultantes das reações químicas na garrafa. A evolução com a aeração é perceptível (merece decanter). No paladar, o sabor de frutas maduras e especiarias confirmam os aromas, e a potência dos taninos e ácidos tornam-no muito gastronômico, exigindo um prato estruturado que harmonize o conjunto. A degustação deste Cabernet Sauvignon merece contemplação para que se possa absorver tudo que ele nos tem a oferecer.