Publicação em 01 de março de 2016

Entrada da vinícola


Quem visita a bela e pequena vinícola no Vale dos Vinhedos, na Linha Leopoldina, em Bento Gonçalves- RS, uma pequena via com diversas cantinas, restaurantes e cafés, conta sempre com a recepção dos próprios membros da família, os quais, sem distinção, são muito alegres e simpáticos, cada um à sua maneira.

A Rejane sorridente e interativa, Vera a delicadeza em pessoa, e os respectivos maridos e irmãos Larentis, Celso e Larri, sempre atenciosos. Acompanho o trabalho dos Larentis desde a abertura da vinícola, em 2001. Antes, atuavam somente no cultivo da uva. Ao longo deste tempo, como cliente, construímos uma amizade, tendo os vinhos e espumantes como elo de ligação.

Balcão de degustação ao fundo, mesas para receber os turistas e enófilos, e barris de carvalho guardando deliciosos vinhos, completam a decoração do local.

A vinícola é um misto de avanço tecnológico com o ambiente bucólico de uma adega pequena, em que os visitantes ficam próximos a barris de carvalho, tanques de aço inox e ótimos vinhos.


No verão, os turistas são apresentados à movimentação do trabalho da colheita e vinificação, podendo entender um pouco do processo ao vivo. A festa da Vindima que ocorre em toda a região, acontece de maneira especial na Larentis, com degustações e programações destinadas aos visitantes, como a colheita noturna e piqueniques nos parreirais. Nos dias em que estive lá para fazer esta matéria, apesar da correria da safra, fui recebido pelo amigo André Larentis, enólogo e filho do Larri e da Vera, com a mesma atenção de sempre.


A HISTÓRIA DA FAMÍLIA E A RELAÇÃO COM A UVA E O VINHO


André, de cinza, recebe casais mineiros da familia Matedi

A vinícola foi inaugurada em 2001, mas a história da família está intimamente ligada ao vinho desde a chegada do trisavô, Arcanjo Larentis, imigrado da Itália, da região de Trento, em 1876, estabelecendo-se nesta propriedade aonde se localiza a Vinhos Larentis. “A família sempre foi produtora de uvas aqui na região. A gente elaborava o vinho para consumo próprio, bem artesanal”, diz André.


Os primeiros parreiras eram um misto de uvas viníferas, como Barbera e Bonarda, e comuns, americanas, como Isabel e Bordô. “A gente trabalhava com 50% de viníferas e 50% americanas. Depois a família adquiriu outra propriedade no Vale dos Vinhedos, então hoje são 20 hectares, com 12 produzindo viníferas. Sempre foi um sonho elaborar vinhos de alta qualidade, e em 2001 demos o primeiro passo... Foi quando a gente formalizou a empresa, e iniciou com uma estrutura de tanques de aço inoxidável e barricas de carvalho. Na época o setor estava passando por uma modernização bem forte, e começamos bem avançados neste sentido. Fizemos um trabalho muito forte na parte de vinhedos. Antigamente se trabalhava no sistema latada, na horizontal, e convertemos os vinhedos para o sistema de espaldeira. Hoje, 90% da área é espaldeira, que é um sistema que nos possibilita ter uma uva de maior qualidade, uma concentração de açúcar maior, com sanidade melhor, o que vai possibilitar ao enólogo elaborar vinhos de melhor qualidade, e maior potencial de envelhecimento”.



A VITICULTURA (produção da uva) E A VINIFICAÇÃO (produção do vinho)


Degustando Malbec Reserva 2013

Enquanto degustava o Malbec 2013, André me explicou que (hoje) 70% da produção dos vinhedos são das variedades francesasChardonay, Merlot e Cabernet Souvignon, completando com tannat, malbec, marselan, teroldego eancelotta. Ele acha que o ponto positivo em se produzir a própria uva é o controle do manejo, maturação e colheita pela própria família, o que garante a escolha das uvas aptas à produção, sendo descartadas as que não se apresentam sãs.


“Após a colheita, as uvas são direcionadas à vinícola para desengaçar e prensar; os brancos são destinados aos tanques para a fermentação sem o contato com as cascas, com o intuito de se obter vinhos refrescantes, com aromas leves, destinados para a produção do branco seco Chardonayou vinho base para espumante. No caso dos tintos, o mosto é direcionado para os tanques para a realização do processo de fermentação alcoólica tradicional, com maceração (mosto com o bagaço) em torno de 15 dias”.


Eu o pedi que explicasse a relação deste período de maceração com o fato de a Larentis buscar vinhos bem estruturados, com capacidade de guarda. André disse que além deste tempo, ainda há uma pós-maceração de uns 10 dias.”Depois que termina a fermentação, o vinho fica mais uns dias em contato com a casca pra ocorrer uma extração ainda maior de cor, taninos, fenóis, acidez de boa qualidade, justamente pra ter  esse potencial de longevidade. Posteriormente o vinho permanece no aço inoxidável por um tempo, e depois vai para as barricas de carvalho americano/francês. Os tintos permanecerão em barricas de 3 a 15 meses, dependendo da qualidade da safra, da variedade e da linha a ser produzida, mas de forma geral, a barrica é usada para agregar qualidade ao vinho, e não se sobressair à característica da uva”.


Chardonay 2014

Interrompemos nossa conversa para fazer o caminho contrário ao certo, e pedi para degustar o Chardonay 2014. O 2013, mais cítrico (abacaxi e maçã), possuía grande frescor e boa acidez (ao contrário dos chilenos e argentinos que me lembram compotas de frutas, mais adocicados); o 2014 me remeteu à juventude, pois senti um leve e agradável aroma detutti-frutti da bala Big Bol, e floral; neste as frutas cítricas estavam menos intensas. Imaginei que as uvas (2014) estivessem mais maduras na colheita.


André afirmou que um dos sucessos da Larentis é a união do conhecimento científico adquirido pelos enólogos com a experiência secular de sua família.“Passar de geração em geração a experiência possibilita se ganhar muitos anos, porque quando um enólogo pensa em fazer alguma coisa diferente, ele tem que esperar um ano pra fazer aquela coisa diferente. Se você for ver, na carreira profissional do enólogo, supondo que ele comece com 20 anos e trabalhe até os 60, são 40 tentativas de mergulhar. É pouco. Então a cada ano você tem que buscar o melhor, sempre.Há muitas coisas que a gente estuda na teoria, que nem sempre na prática funciona, e com a experiência da família a gente consegue adaptar de uma forma a ter bons resultados. Então a experiência ajuda bastante.”


OS VINHOS E ESPUMANTES LARENTIS


Parte superior: Linha Reserva rótulos pretos; Cepas Selecionadas rótulos Branco; Mérito, top da vinícola. Parte inferior: Linha Varietal à esquerda e espumantes Brut e Suave (uva Moscatel), ao lado de edições comemorativas.

A produção de vinhos e espumantes finos e secos (o único produto suave é o espumante moscatel) tem o intuito de conquistar o consumidor que busca vinho de qualidade. O sucesso desta estratégia decorre da capacidade que a família tem de produzir bons produtos a preços competitivos, o que lhes garante fidelização, assim como sempre tiveram comigo e com todos aqueles a quem  indico.


A Linha Varietal compõe-se de vinhos de corpo leve para degustar em momentos descontraídos e com pratos despretensiosos; quando em Vitória levo o Chardonay para a praia, assim como o espumante Brut, os quais acompanham as ostras ou frutos do mar leves, e os tintos, Merlot, Pinotage e Cabernet Sauvignon, com taninos e acidez bem macios e aromas de frutas vermelhas, em um churrasco com amigos, até um pouco mais resfriados, se necessário.


A linha Reserva (Merlot, Malbec, Cabernet Sauvigon e Tannat) é composta de vinhos de corpo médio a forte, bastante gastronômicos, e por serem vendidos ainda jovens, exigem, caso degustados imediatamente, que o enófilo aprecie vinhos com taninos e acidez ainda bempresentes, cor violácea e aromas de frutas pretas como ameixa e amora madura, baunilha, café (especialmente o tannat), chocolate (encontro no marselan), entre outras possibilidades conforme a memória olfativa do degustador.


A Linha Cepas Selecionadas das uvas italianas Teróldego e Ancelotta, muita tânicas e tintórias, merecem ainda um tempo maior na garrafa. Ao contrário, o vinho 2012 da uva Marselan, variedade francesa bastante aveluda, apresenta-se perfeito para o consumo imediato, apesar do potencial de guarda.


Em geral, as Linhas Reserva e Cepas Selecionadas encaram facilmente pratos temperados e carnes vermelhas como coelho ou cordeiro, restando a definição da melhor variedade. Se tiver paciência de deixar algumas garrafas envelhecer, prepare-se que ficará entusiasmado com o sabor e aromas que encontrará, com taninos macios, mas presentes, acidez que encherá a boca, aromas complexos, que mudarão durante a degustação. Que tal fazer o teste?


Mérito 2012

André faz uma surpresa abrindo o Merlot 2009, não mais disponível para a venda. Com maior amadurecimento, o vinho apresentou aromas de caldo de cana e caramelo, com taninos macios e boa acidez, mostrando estar vivo e pronto para receber um prato especial para acompanhá-lo.


Por fim, o MÉRITO, um grande vinho, em que se buscam as melhores qualidades e características de cada uva. Em termos de corpo, penso que se assemelha à Linha Reserva, pois tem um corpo médio, mas com o equilíbrio proporcionado pelo corte, resultando em um vinho aveludado em seus taninos e na acidez, com aromas muito distintos (floral, frutas, chocolate, e ainda um vegetal e um toque de mineral que aparecem com a aeração). Acho que está pronto para beber, mas com ótimo potencial de amadurecimento.


Por isso, caros leitores e amantes do vinho, inclua a Larentis em seu próximo roteiro na Serra Gaúcha. Conhecerá um belíssimo lugar, pessoas incríveis, e se apaixonará ainda mais pelo vinho do Brasil.