O objetivo desta matéria é homenagear dois enólogos com grande conhecimento técnico, e dos quais tenho o prazer de ser amigo. Irineu Dall’Agnol e Alejandro Cardoso, proprietários da vinícola Estrelas do Brasil. Apesar de produzirem excepcionais vinhos tintos e brancos, é na elaboração de espumantes que focam seus esforços, desde o cuidadoso cultivo de uvas nos vinhedos da família de Irineu, em Nova Prata, à vinificação em vinícola terceirizada.


A linha de espumantes da Estrelas do Brasil é ampla, e neste jantar no clube do bolinha, na Embrapa, tive a chance de degustar o Brut 2006, exemplar que há anos não está à venda, e que Irineu trouxe de sua adega pessoal. A publicação de uma matéria de um espumante envelhecido, e com qualidade diferenciada que caracteriza os produtos desta empresa, demanda algumas análises sobre o processo de maturação destes produtos.


Ao contrário dos vinhos tranquilos (sem CO2), os espumantes devem ser armazenados em pé, pois a diferença de pressão dentro da garrafa (4 a 5 ATM) para fora (1 ATM), e a lenta saída de CO2 ao longo dos anos, impedem a entrada de ar, protegendo o produto da oxidação excessiva dos seus compostos pelo 02, como as proteínas ( que ficam escuras), e do álcool, gerando acidez volátil.  Mas então, se os espumantes possuem esta proteção extra, além da rolha, por que se diz que eles não aguentam envelhecimento?


Duas são as principais razões: por ser o vinho base do espumante, em geral, um vinho jovem, proveniente de uvas relativamente verdes, não possuindo estrutura suficiente para envelhecimento; e por se entender que o espumante precisa ter CO2 para ser bom, e com os anos o gás escapa da garrafa, reduzindo sua concentração, transformando o espumante em um vinho tranquilo, sem CO2.


Com relação ao Brut 2006 Estrelas do Brasil, asseguro que ambas as questões não se enquadram, pois como a maioria dos espumantes da Estrelas do Brasil, os vinhos base são estruturados, elaborados a partir de uvas maduras, destinados à produção de espumantes especiais, capazes de envelhecer com grande qualidade. Com relação à redução da quantidade de CO2 na garrafa, que naturalmente ocorreu no Brut 2006, adoro degustar um espumante que voltou a ser vinho tranquilo, envelhecido e complexo, sobretudo, se o vinho base para a sua elaboração era de qualidade.


Independente da idade, degustar um espumante da Estrelas do Brasil é sempre um momento especial, que deveria ser experimentado pelos amantes desta bebida, e por aqueles que ainda acham que o Brasil não possui produtos que possam ser comparados à qualidade dos elaborados na França.