Publicado em 02 de agosto de 2016



Antes de escrever sobre a empresa Dom Cândido é preciso lembrar do seu fundador, um dos responsáveis pela difusão do vinho fino brasileiro, o senhor Cândido Valduga (foto esq.). O seu falecimento recente se deu por conta de um acidente, pois se fosse por sua vitalidade e alegria de viver, muitos anos teriam que ser somados à sua existência. Felizmente, a pessoa de “Dom Cândido” na vinícola foi substituída pela de sua esposa, dona Lourdes, a qual tive o prazer de conhecer quando lá estive para fazer esta matéria. Simpatia, simplicidade e doçura caracterizam esta senhora.


Ao vê-la no refeitório, não sabia que se tratava da proprietária, e ao perceber que tiraria uma foto do local, dona Lourdes disse que “sairia para não atrapalhar”. Eu retruquei, e disse que a presença de uma pessoa embeleza qualquer ambiente, e que ela seria a peça principal da foto, ao fundo. Neste momento, o enólogo Daniel de Paris, que me acompanhava, disse-me quem era.  Conversar com dona Lourdes foi um dos momentos mais importantes de minha visita à Dom Cândido.



 Os Parreirais da Dom Cândido


Sem uma ótima uva, não se faz um grande vinho, e o cuidado que os profissionais da Dom Cândido têm com os vinhedos reflete em seus produtos. Eu pude sentir o orgulho que Daniel teve ao me mostrar as plantações e dizer do cuidado dispensado ao manejo. Ele enfatizou que o senhor Cândido visitava regularmente os parreirais para avaliar o ciclo produtivo, e cobrava qualidade nos mais de 60 hectares, distribuídos no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, e em Veranópolis, onde são cultivadas uvas viníferas das variedades Marselan, Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Moscato Branco, Riesling, Pinot noir, Cabernet Franc, Chardonnay, Isabel, Bordô e Concord (as três últimas para suco).



A CANTINA – Uma Pequena, Grande Vinícola


O mesmo zelo é dispensado aos prédios que compõem a estrutura produtiva da vinícola. A cantina, equipada com tecnologia de ponta, é de fácil acesso para o recebimento das uvas, dispostas na esteira que as levam para o desengaçe, prensa e posterior vinificação. Uma estrutura produtiva pequena, mas capaz de possibilitar à Dom Cândido a excelência na qualidade em todos os produtos que elabora. Fundamental, a higiene é perceptível em todas as áreas.



O RESTAURANTE PARA GRUPOS


Aconchegante e agradável, o local nos convida a pedir um vinho e degustá-lo com um prato especial. Reuniões e eventos são comuns nas vinícolas da Serra Gaúcha, e o Restaurante Dona Lourdes é um destes ambientes diferenciados. O hall de entrada com telas e cadeiras com estilo antigo, e a mesa central rodeada por garrafas e barricas, são inspiradores. Daniel me explica que o salão recebe uma decoração especial antes dos eventos, transformando-se em um ambiente elegante.



O VAREJO – Um luxo para recepcionar os enófilos e turistas


O varejo da Dom Cândido é um dos mais bonitos que conheço, inclusive ao compará-lo com vinícolas estrangeiras. Não muito grande, mas a qualidade da decoração e da distribuição dos vinhos impressionam ao entrarmos no local. Em tijolo aparente e madeira, prateleiras dispostas em 45° facilitam a verificação dos produtos, um grande balcão com cadeiras para a disposição das taças e garrafas, e telas e equipamentos / barris antigos de vinificação completam a decoração, que nos remete a décadas passadas. Estar no varejo da Dom Cândido degustando ótimos vinhos e espumantes nos faz perder a noção do tempo.



OS VINHOS E ESPUMANTES – Diversidade e Qualidade


Com o enólogo Daniel De Paris


Por acompanhar o trabalho da vinícola Dom Cândido desde a década de 1990, não me surpreendo com a excelência dos seus produtos. Entretanto, como havia tempo que não os degustava, comprovei que a seriedade se mantém, e em constante evolução. Com grande diversidade, são elaborados vinhos e espumantes com estruturas diversas, que atendem a consumidores iniciantes que buscam vinhos jovens e leves, a enófilos experientes, que exigem complexidade em vinhos encorpados e de guarda.



Espumantes: a linha Estrelato engloba o adocicado Moscatel, o Rosé Brut de uvas Pinot Noir e Cabernet Franc e o Branco Brut das castas Chardonay e Riesling Itálico. Correspondem aos espumantes de corpo leve, com maior acidez e frescor, aromas cítricos, ideais para harmonização com frutos do mar frescos, queijos e entradas leves, e pratos com maior acidez ou relativamente gordurosos.

 

O Brut Dom Candido, elaborado com uvas Chardonay pelo processo charmat, apresenta corpo médio, maior persistência, mescla aromas de frutas brancas maduras e cítricas, mas mantêm o frescor e boa acidez, aceitando pratos leves e/ou temperados. Representa com louvor a qualidade que faz os espumantes brasileiros famosos e respeitados em todo o mundo.



No meu entender, os vinhos são o diferencial da Dom Cândido, com produtos elegantes, em todos os segmentos. A linha Reserva é representada pelo branco Chardonay, e pelos tintos Merlot, Tannat e Cabernet Sauvignon.


O Merlot Documento 2011 DOC é impressionante. Atendendo às exigências da Denominação de Origem Controlada do Vale dos Vinhedos, conforme as exigências da OIV – Organização Internacional da Uva e do Vinho, representa a tipicidade que esta casta tem de gerar vinhos complexos, encorpados, porém macios no paladar e nos aromas. A escolha da Merlot como principal uva do Vale dos Vinhedos decorre de sua característica de média longevidade na maturação, possibilitando aos produtores a colheita de uvas maduras em meados de fevereiro, período mais seco na região, alcançando ótima graduação de açúcares, boa geração de polifenóis e ácidos. O DOC Dom Cândido tem coloração rubi intensa, límpido, aromas de frutas vermelhas e negras, mesclados com a baunilha e tostado do carvalho, taninos e acidez macios, que tornam este vinho um néctar. Dada a sua elegância, deve ser harmonizado com pratos leves, de temperos amenos, que  ressaltariam suas características, sem confrontá-las.



Somada à minha incompetência fotográfica, os rótulos claros fazem com que a foto não fique com boa visibilidade para apresentar os dois vinhos mais caros da empresa, feitos em homenagem ao senhor Cândido Valduga. Da esquerda para a direita, o Corte 80 Anos, referência à idade do patriarca, de Tannat, Marselan e Merlot, e o Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2011 Dom Cândido. Ainda não tive a oportunidade de degustá-los, assim não posso fazer minha avaliação, mas acredito que se trata de vinhos de grande qualidade e complexidade. Não vejo a hora de prová-los.



Para encerrar, não poderia deixar de republicar esta raridade da Dom Cândido, apresentada anteriormente na seção VINHOS da Adega do Chamon. Foi um presente do amigo César Luis Pretto, em um jantar em seu sítio no Vale dos Vinhedos. Em perfeito estado de maturação, sem qualquer traço de oxidação ou redução prejudiciais, este Cabernet Sauvignon Dom Cândido 1997 foi degustado por mim, pelo anfitrião e sua esposa, Maria Marconi, por minha mãe, dona Boneca, e pelo amigo Evair Carraro, proprietário da vinícola Michelle Carraro. Todos ficamos maravilhados com a complexidade e suavidade deste vinho, com aromas terciários de especiarias diversas e caramelo, taninos maduros e acidez ainda presente, que conservava o seu frescor. Vinhos como este me relembra as tantas vezes que ouço “especialistas” dizerem que o vinho brasileiro não tem capacidade de guarda. Costumo dizer a amigos que gostaria de dizer a eles que se quiserem me doar o seu vinho nacional envelhecido que “estará ruim”, farei o esforço de degustá-lo e livrá-los deste inconveniente.



Até nosso próximo encontro !!!