Degustação realizada em 17/11/2017

Especialistas (enólogos e enófilos) definem que um vinho atinge o seu apogeu em um determinado momento de seu envelhecimento, em que se inicia o processo de perdas de aromas e sabores primários e secundários, e se ampliam as características terciárias, advindas da polimerização de polifenóis e redução de ácidos, com a diminuição gradual da coloração original, e aromatização vinculada a ésteres, com menor impacto dos taninos e ácidos nas papilas gustativas. Em geral, este momento da evolução do vinho é caracterizado como o começo da decadência dos vinho, antecedendo a sua “morte” num futuro próximo.


Não entrarei no mérito de se discutir se esta conceituação é correta, somente direi que, independente do que os experts entendem, eu me coloco contra esta teoria, pois no meu entender, e principalmente, para o meu paladar, um vinho morre, independente de ser jovem ou velho, quando tem acidez volátil superior aos patamares da percepção humana, em torno de 0,8 g/L ou 13,3 meq/L. Desta forma, um vinho que não apresente estes índices de acidez volátil, mas que esteja com aromas e sabores terciários de envelhecimento, não está em decadência ou morrendo, mas em um novo momento de sua existência, que para o meu paladar, é também excepcional.



Ao degustar o Dodicesimo, um corte de Merlot e Tannat 2004, oferecido pelos amigos Oscar e Irineu Brandelli, proprietários da vinícola Cavas do Vale, do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, em um jantar em família, percebi que estava diante de um vinho diferenciado, com predominância de paladares e aromas terciários, de frutas secas, mel, caramelo, amêndoas, banana, mas com um leve toque de frutas pretas maduras proveniente das cultivares e da vinificação (primários e secundários), com taninos polimerizados e saborosos, ácidos macios, gastronômicos, mas que lhes garantiam ainda jovialidade. Sem passagem por madeira (alternativos ou barricas), o que muito me agrada, trata-se de um vinho de 13 anos que precisa ser entendido, não depreciado por estar “morrendo”.


Degustar este vinho com os enólogos que o elaboraram, formados nas décadas de 1980/90, a partir de uma vinificação competente, na qual as cultivares são as protagonistas (e não a manipulação química e microbiológica), não tem preço. O aprendizado que tenho obtido no curso superior de Viticultura e Enologia no IFRS será a base da minha formação, mas a complementação deste conhecimento junto a amigos enólogos experientes de diversas vinícolas, é essencial. É um privilégio mergulhar na essência da enologia, no vinho de outrora, e aprender com pessoas como Oscar e Irineu Brandelli. O Dodicesimo, vinificado em quantidade mínima, com seleção criteriosa das uvas, mostra - me que estou na direção certa, de focar o meu trabalho como enólogo na elaboração de vinhos de alta gama, para enófilos diferenciados. Este vinho não recebeu notas de especialistas, medalhas em concursos e nem está em guias (anuários) comerciais, por isso precisa ser descoberto em sua fonte, em uma microempresa, distante dos holofotes da mídia especializada.


A garrafa degustada estava sem rótulo, e para a minha surpresa, fui presenteado com a unidade 170ª, última garrafa envasada.


Penso em como são limitadas as avaliações que entendem que este vinho estava em momento de decadência. Tenho pena dos “especialistas” que não se permitem compreender que um bom vinho sempre está em seu apogeu, apenas com características diferentes, conforme o seu envelhecimento.