Assim como todas as vinícolas, a Don Giovanni, situada em Pinto Bandeira – RS, e seus produtos, merecem uma matéria completa na Adega do Chamon, porém, neste momento, apresento a avaliação de um vinho que degustei. Há tempo não visitava e degustava os produtos da vinícola, e fico feliz que ao retornar, percebo que a qualidade é, comumente, superior àquela experimentada por mim anteriormente, o que confirma o compromisso dos produtores brasileiros em elaborar um produto que está sendo reconhecido internacionalmente. Além da bela vinícola e da pousada, a simpatia das pessoas que trabalham é marca registrada da empresa. Nesta última visita, eu, Fernanda Alves e Fernando Martelli, fomos recebidos por Maria Helena, que nos levou à cantina, Giulia Trucolo Martinelli, enóloga que conduziu a degustação, e no almoço, o senhor Valdecir, conhecido como Xirú, e Tatiane. Por fim, após o almoço, uma breve conversa com Daniel Panizzi, proprietário da Don Giovanni.


Diversos rótulos de espumantes e vinhos foram degustados, sendo todos excelentes, conforme o seu propósito, mas neste momento, rendo-me ao tinto Cuvée Segundo Acto 2012, um corte de Merlot 40%, Ancellota 35%, Tannat 15% e Cabernet Sauvignon 10%. Para fazer jus a este vinho, não posso me resumir a explicá-lo tecnicamente, mas dizer que se trata de um vinho impressionante, de guarda, complexo e estruturado, mas elegante em boca. Primeiro ressalto duas questões questionadas (negativamente) por enófilos e que não deveriam ser: resíduos na garrafa após a degustação e graduação alcoólica inferior a 13° GL. Esta mania de vinhos com limpidez excessiva e alto grau alcoólico, combinado com retrogosto adocicado e baixa acidez, foi implantada por Chile, Argentina e Califórnia ao final da década de 1990, o que os levou a conquistar consumidores iniciantes com uma bebida leve, ligeira e doce, ao contrário do padrão dos vinhos europeus, os quais incorporavam as verdadeiras características de um bom vinho. O Cuvée Segundo Acto 2012 apresenta resíduos sólidos provenientes de extrato seco (taninos, ácidos, bitartarato de K e Ca), pois não sofreu clarificações e filtrações agressivas, mantendo sua potência e estrutura, assim como grau alcoólico de 12,8%, perfeito para o equilíbrio de um grande vinho, servindo o excesso somente para nos deixar embriagados (algo que não busco). Cor entre o violeta e rubi, com levíssima turbidez que acrescenta beleza, o que confirma sua capacidade de guarda. No aroma e paladar complexidade e diversidade, o que exige degustação minuciosa para entendê-lo. No aroma os odores advindos do carvalho são sutis, não dominantes, fato muito importante para mim, complementando os aromas de frutas negras e secas provenientes das cultivares, e com um leve defumado e pimenta do reino no fundo do copo, acredito que da Cabernet Sauvignon. Na boca, um néctar, mas potente e gastronômico, com taninos e acidez macios, mas muito presentes, garantindo caráter e estrutura. Como costuma dizer um amigo: “um vinhaço”, no mais amplo sentido da palavra. E olha que não foi decantado para correta aeração, o que resultaria em maior liberação de aromas e sabores. Insisto que os verdadeiros amantes dos melhores vinhos precisam experimentar este produto elaborado pela Don Giovanni. Parabenizo e agradeço a toda a equipe pela recepção e pela oportunidade de degustar excelentes vinhos e espumantes brasileiros.