A PESSOA E O PRODUTOR


Uma breve pesquisa na internet revelará denominações como A Lenda Viva do vinho brasileiro e o  Mago dos Vinhos. Esta fama, acredito, decorre do foco que Bettú dá a seus vinhos. É costume os produtores de todo o mundo terem linhas de produtos, como os ligeiros (do “dia a dia”), os de corpo médio e um ou dois exemplares TOPs, complexos, encorpados e de guarda, mais caros. Bettú, por produzir mínimas quantidades de variedades diversas, procura transformá-los todos em TOP, não havendo outra linha. Em contrapartida, os críticos, a maioria da própria Serra Gaúcha, veem arrogância e descrença nesta forma de trabalhar, pois foge da forma “definida” pelo mercado de como um produtor de vinhos deve ser.


De minha parte, acho seus vinhos surpreendentes, e Bettú uma pessoa simples, sempre disposto a festejar a vida, valorizar as moquecas que faço em sua casa, brincar com os amigos, e receber com muita alegria as brincadeiras constantes que fazemos com ele, pois não há nada melhor do que perturbar este italiano “sizudo”. Esposo da Salete, e pai da Larissa e da Catenta, este engenheiro mecânico e ex-professor de Física de 69 anos, que quando menino trabalhava nas videiras junto ao pai, retoma a antiga profissão após a aposentadoria, definindo que faria pequena produção de grandes vinhos, os quais têm espaço garantido em minha adega, ao lado dos melhores vinhos que degusto.




Entrada da Cantina

A CANTINA


Localizada na rota turística conhecida como Estrada do Sabor, a pequena e bela propriedade da família desde a chegada ao Brasil, em 1886, abriga sua residência e a vinícola, na qual são recebidos enófilos para degustações que duram horas, conduzidas pelo próprio Bettú.


Barris de carvalho e tanques de aço inox ocupam a maior parte da área produtiva, com um espaço vago que recebe a tina para a pisa da uva, método usado por Bettú para a prensagem de seus vinhos. Uma pequena sala para receber até 12 pessoas, número máximo “para que se possa receber bem e fazer uma boa apresentação dos vinhos”, e uma área contígua que armazena pipas e equipamentos antigos, completam a pequena vinícola.


Nesta mesa, utilizada quando o produtor ainda não era muito conhecido, fui recebido pela primeira vez, em 2007, com minha mãe e a amiga Donna Oliveira. Difícil de acreditar, mas entre vinhos, pães, queijos e muito bate-papo, ficamos das 15h às 21h.






COLHEITA E VINIFICAÇÃO


Bettú não mais produz suas próprias uvas, pois desenvolveu uma sólida parceria com alguns produtores, os quais se empenham em cultivar uvas de excelente qualidade, recebendo, pelo comprometimento, um preço superior ao pago no mercado. Ele é enfático ao dizer que somente se faz grandes vinhos a partir de excelentes uvas, por isso todo o cuidado na formação desta parceria. No dia da colheita, definido por ele, leva sua própria equipe, que seleciona os melhores cachos. Tive a oportunidade de participar de colheitas e vinificações, e apesar da seriedade do trabalho, são momentos divertidos. O pagamento pelo meu esforço é a degustação de alguns vinhos abertos após a lida; um ótimo salário.


Bettú ao centro, Alberto à direita e Vitorino à esquerda.

A última experiência, que ocorreu na safra deste ano.


Às 5h:30,chego na casa de Bettú e o acordo (ele não dá o braço a torcer e diz que já estava acordado) para irmos a Nova Petrópolis, aonde se situa o parreiral.

Ao chegarmos, a beleza da região e da propriedade me impressionam; um zelo que certamente é repassado às uvas da variedade alemã branca, Riesling Renano. Na verdade, a Serra Gaúcha lembra-me a região da Toscana, na Itália.


A colheita se inicia por volta das 8h e se prolonga até 12h; o trabalho árduo é mesclado com brincadeiras, sobretudo com o capixaba, incompetente comparado a Vitorino e Alberto, verdadeiros trabalhadores das vindimas. Bettú, às gargalhadas, não perdia a oportunidade: “aonde fui arrumar um empregado tão mole, o trabalho não vai acabar nunca”. Eu o contradizia, mostrando as caixas que havia colhido, sem que ele percebesse que furtava alguns cachos de outras caixas para completar as minhas.


Junto aos amigos durante uma pisa de Pinot Noir

Ao retornarmos,a pisa da uva se inicia. Outro momento mágico, agradável e cultural, mas de muito esforço; moças bonitas pisam alguns minutos em festas e em filmes, mas na vida real, pisar algumas toneladas de uva; não é fácil. A pisa para Bettú não é um folclore, “mas a melhor forma de se prensar as uvas, visto que nenhum equipamento trata as uvas com a mesma leveza que os pés humanos”. Bem higienizados, o trabalho se inicia.  A tina fica em cima de uma grande caixa que recebe o mosto que será peneirado e transferido ao tanque de inox para a fermentação.




OS VINHOS BETTÚ


Uma impressão da folha da variedade comum da uva Isabel (ou Isabella, da espécie Vitis labrusca, proveniente da América do Norte), reverenciando a casta que faz parte da cultura italiana desde a chegada dos primeiros imigrantes, como rótulo, e um contra rótulo com uma mensagem que valoriza o produtor e seu amor pela uva e pelo vinho, compõem as garrafas de todos os vinho Bettú. O que os diferencia são dados escritos à mão, que informam a (s) uva (s), ou o nome do corte, o teor alcoólico, a safra, a quantidade de garrafas elaboradas daquele vinho e o número daquela garrafa.


Em termos de qualidade e tipicidade, seus vinhos se assemelham ao estilo italiano, gastronômicos, encorpados, com taninos e acidez presentes quando jovens, exigindo amadurecimento para que se consiga obter o que o produto pode oferecer. Sabedor destas características e com a intenção de oferecer um produto completo para o consumo, Bettú somente coloca os vinhos à venda anos após a sua vinificação.


Com uma produção pequena, Bettú anualmente diversifica as variedades, pois vinifica somente as uvas capazes de gerar vinhos superiores, complexos, possuindo dezenas, quiçá centenas de rótulos de variedades diversas, como Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Chardonay(em 2010 degustei um sensacional chardonay barricado 2001), Rebbo, Teroldego, Arinarnoa, Garganega, Peverela, Malvasia de Candia, Nebiolo, Sangiovese, Corte Bordalês, Ancelotta, e muitas outras castas, de safras que remontam ao começo da década passada.

Bettú costuma dizer que pode fazer muitas degustações e não repetir um mesmo vinho, com o que concordo, pois sou testemunha da grande variedade que tem em seu estoque. Desde 2007, poucas vezes comprei uma caixa com vinhos repetidos, pois o meu interesse é testar produtos novos, avaliando a complexidade e a característica de cada um.


Contrário ao indicado pelas novas tecnologias mundiais da vinificação mundial, Bettú não utiliza produtos ou equipamentos para clarificar e filtrarseus vinhos(somente os brancos pelo método de resfriamento e decantação), queretiram as moléculasmaiores presentes no mosto (proteínas, polifenóis, carboidratos...), diminuindo a viscosidade e a possibilidade de turvação no futuro. Ele questiona esses processos, pois ao “limparem” o vinho, retiram as substâncias que amadurecem e repassam aromas e sabores complexos.


Em sua avaliação, o fato de amadurecer os seus vinhos em garrafões de 5 litros, transferindo-os para garrafas de 750 ml somente na hora da comercialização, faz com que os resíduos gerados pelas reações químicas benéficas destes compostos fiquem nos garrafões, por meio da decantação lenta (fato que confirmo, pois seguidamente eu o ajudo nesta “trasfega” de vinhos dos garrafões para as garrafas). Por se tratar de um processo muito rápido, esta transferência não prejudica a qualidade do produto. Na verdade, penso que ocorre uma microxigenação benéfica para este novo período, até o seu consumo.

Não entrarei no mérito de discutir tecnicamente o método de Bettú; sei que, assim como eu, um grande número de enófilos espalhados pelo Brasil é fã do estilo dos seus vinhos. Se nosso leitor se identificou, aconselho agendar uma visita para degustar e verificar. Se este não é seu paladar, ou ainda não se sente pronto para a degustação de vinhos mais complexos e mais caros, respeite o seu tempo; mas sempre que puder, diversifique-se e aventure-se.


Até nosso próximo encontro!!!


Contato: (54)3462-6807 vilmarbettu@gmail.com