Data: 24 de março de 2016


Os vinhedos e a cantina da família Petroli ficam no Vale Aurora, no Distrito de Faria Lemos, em Bento Gonçalves, uma região deslumbrante, que mescla mata nativa com vinhedos a perder de vista. Conheci o local com César Petroli, enólogo e um dos responsáveis pelo cultivo das uvas e vinificação. Ao chegar no antigo casarão dos seus avós paternos, que abriga a cantina, fazemos uma viagem no tempo.




VAREJO E VISITAÇÃO


O varejo da Barcarola, na Linha Leopoldina, no Vale dos Vinhedos, um excelente ponto comercial, fica em outro antigo casarão do século XIX que moravam os avós maternos de César, é outro regresso à história da imigração italiana. O interior é aconchegante e convidativo à degustação de um bom vinho. É neste bonito local que ele recebe os enófilos e turistas, e explica as características da produção e dos vinhos Barcarola.

OS VINHOS BARCAROLA


À exceção do espumante suave da variedade Moscatel/Moscato, os demais vinhos da Barcarola são secos, variando do mais ligeiro ao encorpado. A Barcarola se enquadra na categoria de vinícola que produz vinhos em pequena quantidade, destinados a enófilos que buscam qualidade e complexidade.





Os tintos da Barcarola devem ser entendidos conforme o objetivo de seus produtores, os quais os separam por cores nos rótulos, os pretos para as uvas italianas Lagrein, Teroldego e Rebo, novidades para muitos no Brasil, e os brancos para as cultivares francesas Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot. Mesmo não estagiando em madeira, com o intuito de manter as propriedades varietais das uvas, a Barcarola oferece tintos de corpo leve a forte, que se encaixam ao paladar dos mais variados tipos de consumidores, provenientes de uvas de excelente qualidade (pequena produção por planta) e vinficação com boa maceração para os tintos mais encorpados, agregando tanino, acidez e compostos aromáticos presentes nas cascas e sementes.


Quem está acostumado com os bons vinhos italianos sabe que são gastronômicos, com muito corpo e acidez punjante, características do seu terroir, e sobretudo, de suas uvas. Esta mesma estrutura é verificada nos vinhos produzidos no Brasil. Cesar aproveitou o tempo que estudou enologia na Itália para trazer boas mudas para o Brasil, o que gerou vinhedos saudáveis e com ótimos frutos.



Trio das variedades italianas


O Lagrein 2014 Barcarola é um vinho especial, e acredito que exclusivo da Barcarola, pois não conheço outra vinícola que a produza. O que me surpreende é que César prefere vinificá-lo com corpo leve, com apenas 8 a 10 dias de maceração, resultando um vinho aveludado, cor intensa, mas não tão violácea para a idade, taninos macios, acidez delicada, aromas de frutas e compotas, um toque defumado, e no paladar, surpreendente, pronto para ser degustado. Um “vinho feminino”, pois agrega delicadeza e complexidade.


Tânica e tintória, o Teroldego 2012 é intenso, fato natural para quem conhece esta cultivar, acostumada a dar vinhos encorpados e de guarda. Por não passar em madeira, os aromas predominantes são de frutas e um discreto vegetal, variando ao longo da degustação. No paladar exige respeito, pois o enófilo se deparará com taninos e acidez vivos, forte persistência e juventude. Para os que gostam de desafios, uma surpresa; um pequeno lote do Teroldego 2008, propositadamente guardado, foi recentemente colocado à venda. No lançamento era uma vinho surpreendente, e agora um nectar, que merece decanter e contemplação.


Sou suspeito para falar do Rebo 2014, pois adoro esta cultivar. Vinhos complexos e estruturados, apesar de menos intensa do que a Teroldogo. Responde bem à aeração, liberando aromas distintos ao longo da degustação. Na boca é um vinho potente, com acidez e taninos persistentes, mas aveludado. Este exemplar da Barcarola está na sua infância, mas bom para degustar, para os mais apressados (situação em que me enquadro, às vezes). Quem tiver paciência para esperar, terá excelente surpresa.


Todos vão bem com massas e carnes, mas a Lagrein pede molhos e temperos mais delicados que suas conterrâneas.


Trio das variedades francesas


Do outro lado, as clássicas e conhecidas francesas, que na Barcarola varia do vinho mais leve, o Cabernet Sauvignon, o mais complexo, o Merlot, e o mais encorpado, o Tannat.


O Merlot 2012 se mostra ao olfato com cana de açúcar e caramelo surpreendentes, mas os aromas de frutas vermelhas e negras estão lá, mantendo a tradição desta cultivar. Um vinho complexo, de corpo médio, equilibrado, pronto para se beber, com taninos e acidez macios.


A Tannat dá ótimos resultados na Serra Gaúcha, com vinhos potentes e persistentes, com excelente cor, tanino e acidez. O 2012 Barcarola tem ótimo volume de boca, aromas de frutas a toques vegetais, com potencial de amadurecimento, mas pronto para se combinar com pratos temperados e quentes.


O Cabernet Sauvignon 2012 é o mais ligeiro e menos potente. Com toques herbáceos, é opção para os que preferem vinhos leves, com menos tanino e acidez. Um leve adocicado no fim da boca faz parecer que sua fermentação não ocorreu até o fim. Lembro que degustei os Cabernet das safras anteriores e os achava mais potentes do que o atual.



O TIPO AMARONE E O LICOROSO, DE SOBREMESA



Todo apaixonado por vinho já degustou um Amarone, da região do Vêneto, na Itália, produzido a partir de uvas passificadas. São vinhos de alta complexidade, de álcool e açúcar residual maiores, potentes, com excelente acidez e taninos quando jovens, o que os torna vinhos de guarda. Quem teve a oportunidade de degustar um Amarone envelhecido, certamente provou um dos melhores vinhos do mundo. Cesar aprendeu o processo produtivo do Amarone quando estudou na Itália, e se arriscou a fazer em sua vinícola.


Vinificado somente em safras espetaculares de maturação e sanidade das uvas, os dois primeiros são de 2010 e 2012, e sobre eles, faço a seguinte afirmação: apresente às cegas aos amigos enófilos mais exigentes, após um tempo no decanter, e espere a reação. A satisfação é grande, pois você tem a oportunidade de presenteá-los com uma maravilha da enologia. E para incorporar um pouco de alegria ao momento, terá a chance de fazer aquela gozação agradável, pois poucos ainda entendem que o Brasil tem capacidade de elaborar um vinho como este, então as opiniões sobre a sua procedência passam longe do gol.


O próximo exemplar a ser colocado para os consumidores será o deste ano. A safra 2016 foi peculiar, pois geadas no período de floração e brotamento em agosto e início de setembro, e chuva em excesso até dezembro, prejudicaram fortemente o volume de produção, com queda em torno de 60%, porém, a estabilidade do clima em janeiro e fevereiro, com dias ensolarados e noites frias, no período de maturação (também chamado de virada de cor), proporcionou uma uva de ótima qualidade aos produtores que fizeram um bom manejo. Conversando com um produtor amigo, ele me disse que “o fim compensou o meio”.


Para minha felicidade, César me convidou para acompanhar a vinificação do Tipo Amarone, uma oportunidade única para um amante do vinho e estudante de enologia. Com prazer em ensinar, explicava cada etapa, sem segredos, característica de grandes profissionais e pessoas do bem.

A primeira atividade foi a colocação dos cachos nas telas de secagem, após uma colheita especial, em que o processo precisa ser feito com extremo cuidado para que as bagas não se rompam, o que comprometeria a secagem que dura de 20 a 40 dias (dependendo da temperatura do período), pois a liberação do suco interno da uva provocaria a sua deterioração por bactérias e fungos, ação impedida pela casca. A desidratação da uva reduz o volume de mosto extraído para 1/4 do normal. A relação de produção comum é de 1kg de uvas para 750 ml de vinho, mas a secagem leva esta fração para 4 a 5 kg de uvas/garrafa.  




Retorno 12 dias após para verificar a secagem das uvas. Percebo que o processo de passificação ocorre de maneira consistente. César me diz que por causa do forte calor deste ano (janeiro e fevereiro), deixará as uvas secando no máximo uns 20 dias para o Tipo Amarone, e em torno de 30 dias para o Licoroso.



A variedade que mais se adequa à produção do Tipo Amarone e do Licoroso na Barcarola é a italiana Rebo (Corvina, para o Amarone italiano), visto que esta cultivar possui casca resistente, que não se quebra facilmente, e alcança boa maturação nos vinhedos do Vale Aurora. Existe um pequeno complemento com as variedades Merlot e Teroldego, agregando aromas e corpo. Por conta da maior concentração de açúcar, o vinho Tipo Amarone atinge patamares em torno de 15% de álcool, bem maior do que os vinhos secos produzidos pelo processo normal (vinificação logo após a colheita).


A diferença básica para o Licoroso é que a secagem das uvas ocorre por um tempo maior, concentrando ainda mais o açúcar em relação ao líquido. Assim, mesmo atingindo patamares de 16,5% de grau alcoólico, o vinho ainda terá uma quantidade de açúcar residual que o deixará doce. Para que você tenha ideia, em geral, uma boa uva para se fazer um vinho fino seco precisa ter uma concentração de açúcar (em torno) de 19 a 23 graus brix (unidade de medida), mas a concentração para o Tipo Amarone deve atingir os 26 brix, e para o licoroso 30 brix. Outro tratamento especial necessário para se fazer estes vinhos é a utilização de uma levedura especial que sobreviva e trabalhe a concentrações maiores de açúcar e álcool.



A VINIFICAÇÃO


Em março, com o vinho no tanque, vamos à cantina para verificar o processo de vinificação. Para nossa surpresa, após mais de duas semanas, a fermentação alcoólica ainda não havia terminado, algo impensado para um vinho seco normal.


Ao fazer a primeira trasfega (transferência do líquido para outro tanque, retirando-se a borra decantada), pude perceber a elevada viscosidade do resíduo. Como se trata de um volume muito pequeno, Cesar verteu o vinho do tanque para três baldes, retirou a borra do fundo, limpou e higienizou o tanque, e retornou o líquido para o mesmo recipiente, dando continuidade à fermentação alcoólica. 



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ANÁLISE SOBRE O VINHO TIPO AMARONE DA BARCAROLA


Quando a safra 2010 foi lançada eu comprei uma caixa, pois fiquei impressionado. Degustei algumas garrafas com amigos e em todas a avaliação positiva foi unânime, com grande exaltação à qualidade e semelhança com os originais italianos.


Ao se beber um Amarone Italiano e o Tipo Amarone da Barcarola o degustador tende a sentir um adocicado maior nestes vinhos do que nos demais vinhos secos. Esta percepção decorre da possibilidade de haver uma pequena quantidade de açúcar residual que não foi fermentado (transformado em álcool), entretanto, por não superar o patamar de 4 g/L, o vinho ainda é considerado seco pela legislação brasileira. Apesar deste paladar mais adocicado, a ótima acidez destes vinhos impede que se tornem enjoativos, chatos na boca. 


Outra característica interessante, que gera complexidade de aromas e sabores nestes vinhos, é a presença maior de um álcool superior chamado glicerol, produzido pelas leveduras por conta do maior estresse na fermentação, dada a grande presença de açúcar. Este álcool dá características mais complexas ao vinho do que o etanol (álcool etílico), o mais abundante nas bebidas.


Para o meu paladar, a maior concentração de álcool e açúcar residual faz com que este tipo de vinho não seja muito gastronômico, encaixando-se melhor com aperitivos temperados e fortes que antecedem uma refeição. Naturalmente esta percepção depende de cada um; para mim, o Tipo Amarone Barcarola é um vinho tão fantástico que se coloca como o protagonista, não aceitando facilmente a companhia de outros vinhos e comida durante sua degustação.


Por fim, acho que deixei o amigo Cesar com inveja, pois ele me disse que só tem uma garrafa da safra 2010, e eu ainda tenho 3.


Até nosso próximo encontro!!!