Visitar a vinícola Adolfo Lona em Garibaldi – RS foi uma volta ao começo de minha vida enológica. Como ressalto em meu perfil neste blog, degustar os vinhos Baron de Lantier, no começo da década de 1990, elaborados por Adolfo Lona, e constatar que eram tão bons quanto os ótimos vinhos importados que eu conhecia, entusiasmou-me, e desde então, não mais deixei de ter os rótulos do Brasil em minha adega. Por conta de desencontros da vida, somente agora tive a honra de conhecê-lo.


Ao agendar a visita à sua cantina, a empolgação por conhecer um dos enólogos responsáveis pela evolução do vinho e do espumante brasileiro, se misturava com a curiosidade de saber como seria a pessoa Adolfo Lona? Resposta: quanto maior o conhecimento e a experiência de alguém, mais simples ela se torna, pois a sua história a precede. Simpatia e generosidade definem Adolfo Lona, paciente e tranquilo ao responder os questionamentos dos presentes, não por “tino comercial”, pois não precisa, mas pelo amor ao vinho e pelo prazer de ensinar.


A recepção


O grupo, organizado por Fernando Martelli, guia enogastronômico e esportivo da Serra Gaúcha, foi reunido em uma pequena sala.  Entre os presentes, Paola Szynwelski de Paula, candidata à Rainha e/ou Princesa da Fenachamp – 2016, evento que ocorre na cidade de Garibaldi, e que exige das meninas maior entendimento de elaboração e degustação. Lona nos dá uma aula sobre a história do vinho e do espumante no Brasil, em especial a partir da década de 1970, período em que se inicia um trabalho voltado às uvas viníferas para a elaboração de produtos classificados como fino.


O tour pela cantina


Lona nos apresenta a pequena cantina, explicando de forma didática os processos de elaboração (Charmat e Tradicional) e o objetivo do seu trabalho: pequena produção de produtos de grande qualidade, específicos conforme a vinificação.


Um galpão simples e não muito grande, mas corretamente preparado (em termos técnicos e sanitários) para a elaboração de um produto alimentar. O primeiro espaço é composto por bancadas para apresentação dos exemplares, divididos pelo estilo e categoria. Em uma área contígua, pequenos tanques de aço inox confirmam a produção limitada. Nesta sala ele descreve mais sobre os processos de vinificação e responde a perguntas. Percebia-se que o grupo era composto por enófilos experientes e amadores (e um enólogo da Domno), e Lona respondia a cada um com a mesma simplicidade e valorização. Pensei que somente alguém muito apaixonado pelo que faz, após décadas de trabalho, demonstre o mesmo prazer como se o primeiro emprego fosse. Era claro em seu semblante.


A degustação na adega dos espumantes


O último salão abriga as garrafas de espumantes elaboradas pelo método Tradicional, que necessitam ser giradas diariamente para aumentar o contato das leveduras com o líquido, e ajudar na sua decantação para o bico da garrafa, de onde serão retiradas para a colocação do licor de expedição e da rolha, ao fim do processo. Mesas preparadas nos esperavam para uma degustação orientada pelo mestre. Apesar da baixa luminosidade, fotos mostram um pouco deste momento especial.



Os espumantes Adolfo Lona


Método Charmat


Elaborados em autoclaves, tanques em aço inox específicos para suportar a pressão de 6 atm no momento em que se represa o gás carbônico da segunda fermentação, este processo tem como objetivo produzir espumantes com maior frescor e acidez, leves, para serem bebidos jovens. Não se trata de dizer que são produtos de menor qualidade (comparados ao Método Tradicional), mas sim de objetivos diferentes, pois são menos complexos. Por serem refrescantes, por exemplo, para mim são muito apropriados para se degustar na praia, no verão, bem resfriados, acompanhando uma ostra ou uma moqueca capixaba.


Com o intuito de se obter estas características, os enólogos tendem a priorizar uvas menos maduras, as quais repassarão maior acidez e aromas cítricos ao vinho base e, por consequência, ao espumante. Outra tendência (nem sempre), com o intuito de se manter a acidez, é impedir a realização da fermentação malolática nos vinhos base, mantendo-se o ácido málico proveniente da uva, e não o transformando em lático, menos potente.


Lona evita a malolática em seus dois primeiros Brut que apresento, entretanto, o mesmo não se pode dizer com relação à maturação das uvas. A sua competência em vinificar e uvas mais maduras (fica claro ao se degustar) fazem com que estes produtos, apesar de manterem as características do método, possuam suavidade e elegância incríveis, comuns aos elaborados pelo método Tradicional.


O primeiro, o Brut Branco Charmat (foto esq.), ao invés do esverdeado das uvas verdes, possui cor amarelo palha, que confirma a boa maturação das cultivares, que resulta em um ótimo vinho, mais saboroso e aromático do que o normal. Outra especificidade de Lona é fazer a segunda fermentação a temperaturas ainda mais baixas (entre 12 a 15°C), o que torna o processo bem lento, fazendo com que as borbulhas sejam intensas e finas, e os aromas mantidos, evitando-se evaporação.


Assim, este Brut, feito a partir de uvas Chardonnay e de uma pequena quantidade de Pinot Noir, tem aromas de frutas brancas maduras (pêra, maçã, abacaxi) e floral. Na boca o frescor e a acidez estão presentes, mas com muita elegância. As torradas e queijos à mesa se harmonizam perfeitamente com a bebida. Mesmo em uma noite fria de inverno o produto envolveu a todos os presentes.



Conforme a legislação, o Nature tem até 3 g/L de açúcar residual, o que torna desnecessária a adição de açúcar no licor de expedição após o dégorgment (retirada da tampa e das leveduras), completando-se o volume perdido. Interessante ressaltar que, comumente, o licor de expedição é mantido em segredo pelos enólogos, pois é neste momento que ele faz correções ou os detalhes finais ao seu espumante, os quais se somam às características advindas do processo. Porém, é claro que um grande espumante não será derivado deste detalhe final, sendo necessário que toda a sua elaboração ocorra dentro de padrões elevados de qualidade.


Por não precisarem de muita acidez, o que possibilita ao enólogo (que deseja) trabalhar com uvas mais maduras, o que torna os Nature complexos e finos. Na Serra Gaúcha, esta maturação é alcançada nas cultivares Chardonnay e Riesling Itálico (brancas), e tinta Pinot Noir, por serem colhidas em janeiro e começo de fevereiro (ciclo curto), antes das chuvas de fim de fevereiro e março, que prejudicam a maturação das variedades de ciclo longo, em especial da Cabernet Sauvignon.


A permanência na garrafa em contato com as leveduras é, comumente, de no mínimo um ano, período em que a maior parte da levedura sofre autólise, repassando seus aromas e sabores ao produto. Um estágio de mais um ano, ou até superior, tem como objetivo o  amadurecimento do produto com as reações químicas entre os constituintes do líquido, sendo a participação da levedura menos importante.


Defino o Nature Pás Dose Adolfo Lona como um vinho para se refletir, para se degustar em momentos especiais, em que o enófilo tenha condições de entender o que está bebendo. Não se trata de descrevê-lo como fiz com os demais, pois neste caso partimos para um patamar diferenciado da análise sensorial, na qual é necessário ter experiência para que se possa compreender a complexidade deste produto.


No momento que recebi o líquido na taça não percebi borbulhas ou perlage, mas uma explosão dentro do copo, com pequeníssimas bolhas brotando de tudo quanto era lugar. A limpidez se mesclava com um amarelo palha/ouro, e os aromas se desprendiam da taça com uma facilidade que não precisava chegar o nariz perto para sentir. Era confuso, pois frutas brancas maduras se misturavam com amêndoas e pão, flores vindo logo depois com caramelo e doce de leite (acredito que da fermentação malolática do vinho base), e por aí a coisa se seguia. Demorei a colocá-lo na boca, pois não conseguia parar de cheirá-lo. O paladar? Não o descreverei. Complexidade ao extremo; não é necessário resumi-lo em adjetivos e substantivos. “Degustem, é o que lhes indico”.




Da esquerda para a direita: branco e rosé Charmat, Brut e Nature método Tradicional.


O Nature ORUS Rosé Adolfo Lona tem fabricação limitada a 600 garrafas, sendo o TOP da vinícola. Este não descreverei, pois ainda não o degustei. Se eu tenho dúvida de que seja fantástico? Diz o ditado que certeza só a morte, porém, permitam-me contrariar este ditado, pois tenho certeza de que este espumante é um dos melhores vinhos fabricados no mundo, e por isso não quero demorar muito para degustá-lo.



Ao fim da degustação, uma foto descontraída demonstra a felicidade de todos.